WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Parque Augusta é aberto com bosque centenário e árvores nativas

Refúgio de ao menos 21 espécies de aves, espaço conquistado por luta comunitária revela um pedaço da Mata Atlântica em SP

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

De um periquito visto apenas em regiões de Mata Atlântica até um cedro-rosa de um metro de diâmetro, um bosque centenário poderá ser visitado a partir deste sábado, 6. A descrição talvez não deixe evidente, mas o espaço fica no centro de São Paulo e foi tema frequente de mobilização e debate público durante décadas: o Parque Augusta.

O local ganhou parquinho, arquibancada, cachorródromo e outros itens de lazer e esporte. A partir das 9 horas, a inauguração terá um clima de celebração, com apresentações do maestro e pianista João Carlos Martins, do coreógrafo Carlinhos de Jesus e da banda Pequeno Cidadão, liderada por Arnaldo Antunes.

Antunes e mais dois integrantes do grupo são autores de uma canção, gravada há cinco anos, que resume o que era defendido pelos movimentos de implantação do parque . “Vitória do verde, da folha que cresce no galho/ Dentro da selva de pedra terás vida longa/ Debaixo das árvores quero curtir sua sombra/ (...) És um oásis no centro da nossa cidade”, diz um trecho.

Mais do que um oásis para os novos frequentadores, o espaço já é um refúgio de ao menos 21 espécies de aves, três delas na lista da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites): o beija-flor-tesoura, o carcará e o periquito-rico, espécie endêmica da Mata Atlântica.

Bióloga da Divisão da Fauna Silvestre da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, Analisa Magalhães diz que o número deve ser ainda maior, pois o levantamento foi feito apenas uma vez e há espécies que aparecem sazonalmente. “E não é só pombo e pardal, como as pessoas poderiam imaginar. Tem uma riqueza. Os parques municipais têm um papel para a conservação da biodiversidade”, comenta.

“Quando comecei a trabalhar com fauna na cidade, a minha expectativa para animais silvestres era baixa. Na faculdade, ninguém falava que havia riqueza. Quando eu vi, caí do cavalo. Sempre tem um bicho que surpreende”, acrescenta. “Na pandemia, isso ficou mais evidente, as pessoas passaram a ver que, na cidade, tem coruja, gavião.”

A bióloga explica que o Parque Augusta se soma ao Trianon, ao Buenos Aires e outros espaços próximos na formação de um corredor verde. Estes locais se tornam atrativos pela vegetação variada, a qual provê diferentes tipos de alimentos (frutos, néctar, insetos, minhocas etc) e material para abrigo e construção de ninhos. “Quanto mais variado, mais biodiversidade. Tem ave que só fica na copa, tem ave que fica em substrato mais embaixo.”

No caso da flora e vegetação, um relatório entregue em 2018 por uma bióloga da Prefeitura apontou 134 espécies, das quais cerca de 44% são nativas da Mata Atlântica. O bosque também se caracteriza por ser heterogêneo, reunindo nativas, como tapiá-guaçu, embaúba (de 15 metros de altura), pitangueira e jerivá, e também exóticas, como jacarandá-mimoso e araucária-australiana, por exemplo. A longo prazo, a recomendação técnica é que as espécies exóticas sejam substituídas, ao morrer, por exemplares da Mata Atlântica.

A árvore mais simbólica do parque fica, contudo, em outro local. Trata-se de uma figueira-mata-pau, cujas raízes se expandiram pelo muro que separa o parque da Rua Augusta. O relatório da Prefeitura de 2018 descreve a situação como um exemplo “em plenitude da capacidade de adaptação e sobrevivência, mesmo em condições sem solo, característica que poderia ser discutida nos programas de educação ambiental a serem desenvolvidos.”

A preservação se deve em parte a uma sucessão de determinações legais. Um levantamento feito pelo Município demonstrou que a primeira delas foi a declaração de utilidade pública da área, em 1970, sucedida por um decreto que garantiu a proteção do bosque e a fruição pública. Depois, em 1989, um decreto considerou as árvores daquela região como patrimônio ambiental estadual.

Mais adiante, em 2002, o bosque e mais algumas outras árvores foram tombados junto com os demais remanescentes do antigo colégio feminino Des Oiseaux, que funcionou no local de 1908 a 1967. “A dimensão  e  a  diversidade  arbórea  e  arbustiva  do  lote  e  a avifauna existentes nesta região escassa de área verde”, foi uma das justificativas da decisão.

A relação do bosque como um espaço de apreciação não será, aliás, novidade. Um levantamento feito pela equipe de restauro do projeto, a Kruchin, identificou um caminho centenário junto ao que foi o jardim do Colégio Des Oiseaux, que se divide em trilhas e escadas mais estreitas por diferentes pontos, margeados em partes por tijolos.

Defensores da implantação do parque celebram inauguração

A implantação do Parque Augusta está em grande parte ligada a moradores e grupos que defenderam o espaço de diferentes formas e em vias variadas. Promotor que moveu a ação  contra as incorporadoras donas dos terrenos do parque (por irregularidades) e que mediou as negociações com o poder público, Silvio Marques celebra a inauguração como uma conquista da sociedade civil organizada e do Ministério Público. "É um legado para as futuras gerações", resume.

Também uma das lideranças pela implantação do parque, Célia Marcondes, da diretoria da Sociedade dos Amigos, Moradores e Empreendedores do Bairro de Cerqueira César (Sammorc) destaca a função social e ambiental do espaço. “É um exemplo a ser seguido, de menos área privada, mais área pública. Menos concreto, mais verde. Menos cimento, mais área permeável.  Um presente que todos esperavam e que se concretiza.”

Já Sérgio Carrera, um dos fundadores do coletivo Aliados do Parque Augusta e hoje integrante do conselho gestor do local, comenta que chegou a ficar arrepiado ao entrar no parque na véspera da inauguração. “É inimaginável esta conquista. Vencemos o poder da grana que destrói coisas belas”, afirma ao citar canção de Caetano Veloso. “O Parque Augusta será a praia que o paulistano não tem.”

Funcionamento. Oficialmente, o espaço se chama Parque Augusta - Pref. Bruno Covas, após a aprovação do novo nome pelos vereadores paulistanos e que gerou críticas. Ele estará aberto ao público diariamente, das 5 às 21 horas, a partir de domingo, 7.

O boulevard que ligaria o espaço à Praça Roosevelt (pela Rua Gravataí) não saiu do papel até o momento e passou para responsabilidade da Prefeitura. Segundo nota da gestão municipal, foi dado início "às tratativas intersecretariais necessárias para dar início à confecção do projeto".

Os custos do Parque Augusta foram de cerca de R$ 11 milhões, de acordo com a Prefeitura, pagos pelas duas construtoras. Em troca, ambas ganharam créditos para erguer prédios acima do limite mínimo em outras áreas da cidade sem a necessidade de pagar taxa adicional.

A entrega das obras foi adiada em 2020 e ao longo de 2021. Entre os motivos apontados pela Prefeitura, estão a pandemia da covid-19 e a determinação de prospecção arqueológica no local, no qual foram encontradas e 2.493 peças (como pedaços de louça, por exemplo).

As aves do Parque Augusta:

- Rolinha

- Pombo doméstico (espécie exótica)

- Avoante

- Alma-de-gato

- Beija-Flor-Tesoura 

- Carcará

- Periquito-rico 

- Ferreirinho-relógio

- Bem-te-vi

- Bentevizinho-de-penacho-vermelho

- Suiriri

- Pitiguari

- Juruviara

- Andorinha-pequena-de-casa

- Corruíra

- Sabiá-branco

- Sabiá-laranjeira

- Sabiá-poca

- Sanhaço-cinzento

- Sanhaço-do-coqueiro

- Cambacica

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