FOTO AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
FOTO AMANDA PEROBELLI/ESTADAO

Grupo trava desocupação do Hotel Cambridge

Racha do movimento de moradia foi parar na Justiça; antigo hotel deve se tornar residencial

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 03h00
Atualizado 28 Março 2018 | 12h24

SÃO PAULO - Desta vez, a história se inverteu: foi o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) o autor do pedido de reintegração de posse na Justiça do prédio ocupado. O edifício, aqui, é o icônico Hotel Cambridge, no centro, invadido há seis anos. Doada ao movimento pela Prefeitura, a construção já tem até um projeto para se tornar residencial. O problema é que um grupo de 14 moradores da ocupação, que não será beneficiado com as futuras moradias, se recusa a sair. 

Após quase nove anos fechado, o antigo hotel de 15 andares foi desapropriado em 2011. Cinco anos depois, o poder público doou o imóvel ao MSTC. 

O movimento foi selecionado pelo programa Minha Casa Minha Vida Entidades e vai receber dinheiro da Caixa Econômica Federal para construir habitações no edifício. Mas, para ter o financiamento, o prédio precisa estar vazio até hoje - data limite fixada pelo governo federal para a contratação do projeto habitacional. 

A maior parte das famílias deixou o prédio no último fim de semana, o que havia sido combinado em junho. O principal lar provisório não fica distante: será outra invasão, o antigo prédio do INSS na Avenida 9 de Julho, na mesma via onde também está o Cambridge. 

+ Morar no antigo Hotel Cambridge é batalha (quase) vencida

Os 14 remanescentes - que não estão entre as 121 famílias selecionadas para morar nas futuras unidades habitacionais - não querem cumprir o combinado. E, por isso, o MSTC recorreu ao pedido de liminar, “para não correr o risco” de prejudicar os trâmites com o governo federal, justifica a líder do MSTC, Carmen Silva. 

Entre os critérios para escolher as 121 famílias - o que deixou outras 30 residentes do Cambridge fora da lista -, um dos mais importantes era a participação nos atos e assembleias do MSTC. 

+ A questão da moradia está no centro de 'Era o Hotel Cambridge', de Eliane Caffé

+ ‘Era o Hotel Cambridge’: um poema geopolítico

Mas, para um dos líderes da resistência, o aposentado Jorge Laurindo, de 61 anos, o critério de seleção foi “político”. “O movimento se dividiu”, diz ele. 

Morador do Cambridge há cinco anos, Laurindo não está entre os escolhidos e duvida que as unidades habitacionais sejam de fato construídas. “E o dinheiro que colocamos?”, questiona. Por mês, as famílias contribuíam com R$ 200 para despesas de manutenção, limpeza e segurança (uma portaria 24 horas era mantida no local). 

Os moradores que não foram escolhidos para o residencial não têm destino definido nem atendem aos critérios de concessão do auxílio-aluguel, da Prefeitura. 

A auxiliar Lucimara Santos, de 42 anos, diz que não sai do Cambridge por não ter para onde ir. Ela, que também faz parte do grupo de não selecionados, descarta viver no antigo imóvel do INSS. “Não queremos. Dizem que é um prédio de risco.”

Já a técnica de enfermagem Claudete Lindoso, de 41 anos, tem apartamento prometido no residencial, cuja construção foi orçada em R$ 13,5 milhões. “Vivemos juntos esse tempo todo. Só queríamos que todos entrassem em acordo”, afirma ela, que já deixou o prédio.

A situação é monitorada de perto pela Secretaria Municipal da Habitação, que há um ano criou o núcleo de mediação de conflitos fundiários. Sob a coordenação da assessora técnica Márcia Terlizzi, o grupo atua junto ao MSTC para a saída pacífica das famílias do Cambridge. Márcia admite que a resistência do grupo pode colocar em risco a contratação do projeto do residencial. 

Em toda a cidade, o grupo monitora 184 áreas passíveis de ação de reintegração de posse, com 55 mil famílias. Segundo ela, “o mote do núcleo é a permanência” dos ocupantes nos prédios. A alternativa é a saída voluntária dos moradores, que é o caso do Cambridge.

Ao todo, o governo federal selecionou em fevereiro o projeto de 7,5 mil unidades habitacionais na capital paulista. Além do hotel, outros projetos de edifícios invadidos por movimentos de moradia e já desapropriados pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab) também foram selecionados pelo Ministério das Cidades para contratação, como o Lord Palace, também no centro da capital.

Segundo a diretora técnica da Cohab, Juliana Marchi, tanto o Cambridge quanto o Lord já têm situação fundiária resolvida e estão "quase desocupados". 

Projeto

No projeto elaborado para o residencial Cambridge, devem ser mantidas as características do antigo hotel, inaugurado nos anos 1950. A estrutura, a fachada e algumas partes de alvenaria do prédio serão mantidas. Instalações elétricas e hidráulicas serão trocadas. O prédio terá também novos elevadores - hoje, eles não funcionam. 

Os apartamentos vão manter a estrutura original. A churrasqueira, no último andar, também continua. Uma das novidades será um salão de festas. 

Linha do tempo

1951: Hotel Cambridge é inaugurado, na Avenida 9 de Julho, no centro.

2002: Hotel fecha, mas bar do Cambridge continua tendo festas como a Trash 80's e a Talco Bells.

2011: Com dívidas de IPTU e após luta jurídica com os herdeiros, prédio é desapropriado pela Prefeitura.

2012: Movimentos de moradia ocupam o imóvel.

2016: Cohab doa prédio ao Movimento Sem Teto do Centro. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.