Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Morar no antigo Hotel Cambridge é batalha (quase) vencida

Prédio deve ser desocupado para reformas, mas parte dos moradores reluta em sair

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

28 Março 2018 | 03h00
Atualizado 28 Março 2018 | 12h26

Uma das primeiras a entrar no Hotel Cambridge quando foi ocupado em 2012, a diarista Vera Lúcia dos Santos, de 49 anos, está sentada na cama e posa para a foto. Mas não sorri. Mantém o semblante sério e só relaxa quando a reportagem lembra: “Vera, você finalmente vai ter a sua casa. Não está feliz?” A diarista se emociona: “É verdade, né? Vou ganhar a minha casa. Só agora está caindo a ficha.”

Enquanto aguarda dois anos pela conclusão da reforma do Hotel Cambridge, que o transformará em residencial Cambridge, a diarista voltará para a ocupação do prédio do INSS, onde já morou e sofreu reintegração de posse anos atrás. Na época, Vera chegou a viver por 15 dias na rua.

“Quando entrei no Cambridge, cinco anos atrás, estava separada, com filha doente, e tinha dormido embaixo de viaduto por 15 dias”, relembra ela, integrante de movimentos de moradia há 9 anos. “Hoje os aluguéis são muito caros. Muita gente gasta tudo com as contas e não tem dinheiro para se vestir, para ter lazer”.

Integrante de movimentos de moradia há 12 anos e pré-selecionada para morar em uma das unidades do futuro residencial Cambridge, a manicure Sabrina Silveira de Almeida, de 30, também estava no prédio do INSS quando o local passou por reintegração de posse. Assim como Vera, ela retornará ao edifício para aguardar a conclusão das obras.

Sabrina se mudou do Cambridge no último domingo, onde morava há dois anos com a mãe, o marido e os três filhos. A mudança não foi tão simples: no apartamento da ocupação do INSS ainda faltava pintar as paredes e colocar piso nos cômodos. As economias vinham sendo feitas nos últimos meses e, com uma ajudinha de parentes, a manicure espera conseguir rapidamente voltar a viver em clima de lar na nova ocupação.

“As pessoas têm muito preconceito com ocupação. Pensam que é uma coisa terrível. E quando trazemos as pessoas para dentro de uma ocupação, ficam admiradas com a organização”, explica. Nos primeiros dias daquele novembro de 2012, quando o movimento de moradia entrou no prédio do Cambridge, a costureira Maria das Neves, de 62 anos, bem que estranhou a ideia de uma ocupação.

“Nunca tinha estado em uma. A gente dormia no chão nas primeiras semanas. Era muito lixo que tinha de tirar de dentro do prédio, um cheiro horrível. E a gente não tinha privacidade. Eu achava muito estranha essa falta de privacidade. Tinha medo pelo que ouvia lá fora”, explica. “O Hotel Cambridge já foi um luxo, mas quando chegamos estava um lixo. Foi muito esforço para tornar habitável”.

Mas o desejo de morar no centro de São Paulo era enorme. Então, a costureira preferiu insistir um pouco mais, mesmo diante de toda a “estranheza”. Em seis anos de ocupação, ela se tornou chefe da cozinha comunitária e conseguiu se reorganizar financeiramente. Nesse período, a maior alegria de Maria das Neves foi ter quitado as próprias dívidas. 

Além de ser conhecida por todos do prédio por capitanear a cozinha, a costureira diz que também ganhou fama depois de participar do documentário Era o Hotel Cambridge. “Sinto satisfação de ver que hoje está habitável e ganhou o chamamento. Sensação de batalha quase vencida”, diz Maria.

Ela reforça o "quase vencida" porque os moradores estão apreensivos com a resistência das famílias que não querem sair do prédio. Apesar disso, os futuros moradores do residencial Cambridge já sonham com as possibilidades que a futura moradia vai oferecer. 

No plano traçado pelo Peabiru, assessoria técnica do MSTC responsável pelo projeto, as unidades habitacionais do futuro residencial Cambridge terão entre 27,5 m² e 55 m². Das características originais do Hotel Cambridge, o atual prédio de 15 andares onde os elevadores não funcionam ainda mantém o piso de taco. 

Parte das áreas comuns e dos apartamentos continuarão com o piso original, segundo o engenheiro Renato Rodrigues, da Integra, construtora responsável pela obra. A estrutura, a fachada e algumas partes de alvenaria do prédio serão mantidas. Instalações elétricas e hidráulicas serão trocadas. O prédio terá também novos elevadores.

Segundo o arquiteto Alexandre Hodapp, como era um hotel, os apartamentos já têm banheiro e manterão a estrutura original. “Cada quarto de hotel vira um apartamento. Nas áreas comuns, já se sabe que vai ter salão de festas. A churrasqueira no último andar deve ser mantida. Os detalhes das áreas comuns ainda dependem dos futuros moradores. Alguns falam em construir área para crianças e bicicletário”, diz Hodapp.

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