Zona sul tem toque de recolher e policiais civis de colete

A onda de violência que atingiu a zona sul de São Paulo na madrugada de ontem, aliada a denúncias anônimas recebidas pelas delegacias nos últimos dias, mudou a rotina dos policiais civis. Parte deles, por precaução, passou a usar colete à prova de balas. A região também voltou a sofrer com boatos de toque de recolher, o que levou pais a buscarem os filhos mais cedo nas escolas.

WILLIAM CARDOSO, JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h02

Diferentemente dos militares, os policiais civis não fazem o patrulhamento das ruas constantemente e, até por isso, não costumam usar o colete, embora tenham o equipamento à disposição, quando necessário. De forma geral, a proteção é usada apenas quando se tem um risco real de confronto, como no cumprimento de mandados de busca e apreensão contra suspeitos.

"Você acha normal a gente usar coletes assim, do nada?", questionou um policial civil, na tarde de ontem, enquanto circulava por bairros do extremo da zona sul da capital, onde sete pessoas foram mortas entre a noite de quinta-feira e ontem. Os colegas dele também estavam com a proteção. Alguns tinham também duas armas curtas na cintura, por precaução.

Outro policial ouvido pelo Estado afirmou que a adoção do colete é uma medida de proteção individual, "não uma determinação da cúpula". "É algo na base do 'cada um que cuide do seu'. Quem se sente inseguro, usa. Não é nada coordenado", disse. "Se a pessoa sentir necessidade, achar que corre risco, é só pegar um e usar", completou.

Os policiais civis contam que foram orientados em meio aos ataques a circular com distintivo à mostra, carteira funcional, arma e algemas. São normas obrigatórias da instituição, mas que, em situações normais, dificilmente são cumpridas à risca. A intenção é estar preparado para fazer abordagens sempre que necessário no período de crise. O problema, porém, é que podem ser identificados mais facilmente por criminosos.

A expectativa dos policiais era de que o fim de semana seria bastante violento, por causa das denúncias de que policiais civis seriam atacados, recebidas nos últimos dias. "Mas a gente não sabe também se são apenas ameaças infundadas", afirmou um deles, no fim da tarde de ontem.

Sem aula. Ontem à noite, a Escola Técnica Estadual que fica no Centro Educacional Unificado (CEU) Três Lagos suspendeu as aulas. No CEU Vila Rubi, os pais buscaram os filhos antes do fim das aulas depois que o boato de toque de recolher correu pelo bairro. Segundo relatos de alguns funcionários do CEU, um líder comunitário da região teria recebido o aviso do PCC e alertado a direção da escola. A direção decidiu, porém, manter as aulas, mas todos os pais que foram buscar os filhos puderam levá-los.

"Quer dizer então que tem uma situação de perigo para os alunos e não para os funcionários? Acho que eles querem mostrar que não estão com medo frente ao crime, mas, se estivesse no lugar deles, prezaria em primeiro lugar a vida das pessoas", disse um dos funcionários que não quis ser identificado.

A Secretaria Municipal de Cultura negou que as duas unidades do CEU tenham fechado mais cedo e afirmou que não pode impedir que os pais busquem os alunos antes do horário.

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