Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

'Yoga pela Paz' lota Parque do Ibirapuera mesmo em domingo gelado

Com manifestações curiosas, multidão apreciou apresentações de músicos, professores e gurus

Paulo Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

15 de agosto de 2010 | 21h36

SÃO PAULO - O encontro está marcado para às 9h, mas são 8h30 e já tem participante sentado na grama molhada do Ibirapuera, pronto para louvar Krishna. Só mesmo um evento chamado "Yoga Pela Paz" conseguiria reunir ao ar livre, na manhã de um domingo gelado, tanta gente feliz.

 

"Govindaaaa, Govindaaaa, Gopaaala", canta a professora de ioga Adriana Valverde, de 36 anos, que veio de Piracicaba com o marido, Diógenes Mira, de 30, também professor, para acompanhar o encontro.

 

Enquanto levanta e abaixa suavemente os braços esticados para os lados, como se fosse um pássaro, Adriana explica que Govinda e Gopala "são outros nomes de Krishna, que é uma reencarnação de Vishnu, o deus mantenedor da natureza". "Junto com Brahma, o criador, e Shiva, o transformador, eles formam OM, a unidade suprema. Segundo Bhagavad Gita, todos nós somos amantes de Krishna."

 

O bom de um evento pela paz é que você pode dizer o que vem à cabeça, cantar as músicas mais estapafúrdias e abraçar as pessoas indistintamente. Ninguém discute. Músicos, professores e gurus se revezam em apresentações no palco.

 

 

"A gente vai fincar os pés no chão, gente, tentar enraizar como se fosse árvore. Várias árvores. Isso. Vamos agora levantar o rosto para o céu, respeitando o pescoço, e falar paaaaaaz, inspirando profundamente... Shhhh, Fuuuu, Pfuuusshhhi", bufa Núbia Teixeira, de 38 anos, professora de ioga radicada há dez anos na Califórnia. "Essa é a minha comunidade. Amo São Paulo", diz.

 

É a vez do cantor nova-iorquino Jai Uttal. "UHUUU", gritam. A bióloga Liliane Cunha, de 40, e o marido, o violoncelista Carlos Alberto Machado, de 38, estão na primeira fila do congraçamento coletivo, sorrindo maravilhados na direção de Uttal.

 

"Ele é luz", diz Liliane, que, como grande parte dos 15 mil participantes _de acordo com os cálculos da organização_, veste o que parece ser o figurino da paz: calça estilo pijama, camiseta tie dye, poncho e gorro. O estranho, em uma prática supostamente silenciosa, é a quantidade de palmas, gritos e assovios.

 

"Existem dois processos na ioga. O mergulho íntimo para o encontro com o seu centro silencioso; e a meditação ativa, quando o silêncio se converte em música", diz Machado, reconhecendo que o processo ali é definitivamente "ativo".

 

 

A próxima atração é Krishna Das, outro cantor americano, que, por sua vez, divide a ioga em "medidative", "fisical" e "of love". Na tenda camarim, ele explica que sua modalidade é a do amor. "Quando você canta, faz o quê? Limpa o coração. Limpa da ambição, do egoísmo, da raiva." Ele tira os óculos e diz que não enxerga nada. Coloca de novo: "Viu? É isso que a música faz..."

 

Das veio pela quarta vez ao evento, que já tem cinco edições. "Ele é um puta cantor. Gravou com o Eric Clapton, o Sting, é amigo mesmo deles, sabe?", diz Sílvia Camargo, mulher do publicitário Fran Abreu, idealizador do encontro junto com a professora de ioga Márcia De Luca.

 

Abreu quis fazer o evento no Brasil quando soube em uma palestra do médico indiano Deepak Chopra, na Califórnia, que uma experiência parecida em Chicago fez os índices de violência da cidade baixarem a quase zero. "Precisava fazer algo parecido em São Paulo...", pensou.

 

No bolinho da primeira fila, a maratonista Ana Luiza dos Anjos Garcez, de 47 anos, está inquieta: "Será que eu vou ter paciência para fazer ioga?" Ela conta que morou vinte anos na rua, roubava, traficava e começou a correr quando precisou fugir da polícia.

 

 

Apesar do histórico "diferenciado", ninguém em volta parece interessado. A maioria dos participantes sorri distraidamente, levanta os joelhos em passos grandes e bate asas com o braços, em uma coreografia semelhante à do filme Hair.

 

"Ai, gente, eu amo isso! É Krishna!", saltita a carioca Carla Freire, quando começam a cantar hare-hare no palco. Carla se apresenta como coordenadora do bem-estar animal de Nova Friburgo, no Rio, e se aproxima querendo dar uma entrevista.

 

"Eu, a Cristina e a Marta viajamos 600km para rezar por um mundo melhor. Respeitamos todas as formas de vida, a animal, a vegetal, o verde, a cor!" No palco, alguém diz: "Vamos aproveitar esse momento, gente, pra buscar a harmonia interior. No shopping center você não compra paz."

 

Ainda bem que, em suas críticas ao consumismo, o guru não exortou ninguém a renegar as instituições financeiras. O banco patrocinador do evento não ia achar nada engraçado.

 

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