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Diego Zanchetta/Estadão
Diego Zanchetta/Estadão

'Xerifes da água' fiscalizam desperdício e cobram economia de moradores de SP

Crise hídrica leva paulistanos a controlar consumo dos vizinhos e a criar 'código de conduta' para tempos de seca

DIEGO ZANCHETTA, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h01

A crise hídrica sem precedentes em São Paulo fez surgir nos bairros da periferia o típico "xerife da água", aquele morador sempre disposto a dar bronca em quem lava a calçada ou o carro. Em algumas regiões onde o desabastecimento já é realidade, até adolescentes e idosos se mobilizam na patrulha contra o desperdício. Não raro, discussões entre vizinhos por causa de gastos com água têm ocorrido sob forte clima tenso, com ameaças e xingamentos.

Para a população das áreas mais pobres da cidade, os cortes recentes indicam que a água pode acabar de vez. Com temperaturas superiores a 30°C e ar quase irrespirável, bairros mais distantes do centro ficaram sem água durante o período noturno, entre sábado e quinta-feira. A Companhia do Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) argumenta que os problemas ocorreram de forma pontual, por causa de trabalhos de manutenção na rede.

As famílias, porém, que enfrentam períodos sem água há mais de três semanas, foram tomadas por uma aflição geral. Em lugares como o Parque Cocaia, no extremo da zona sul, moradores, com auxílio de comerciantes e lideranças comunitárias, criaram até um "código moral" para o uso do recurso. Eles avaliam que agora ninguém mais tem direito a desperdiçar "nenhuma gota".

Jovens passam o dia circulando de motos pelas vielas estreitas do bairro, chamando a atenção de quem é flagrado lavando calçada ou veículo. O Estado rodou 312 quilômetros, por 19 bairros, e constatou que cenas de desperdício viraram raridade.

"Já deu para o pessoal perceber que acabou a água, não dá mais para ficar dando banho no cachorro todo dia", diz o pedreiro Juvenal Gomes, de 49 anos, morador no Cocaia há duas décadas.

Na mesma região, na Rua Ugo Fóscolo, a "xerife" Marcélia Monteiro, dona de casa de 48 anos, costuma tirar satisfação com vizinhas que lavam o quintal. "Avisamos todo mundo que a água para fazer a faxina tem de ser a mesma do tanque ou da máquina de lavar. Se estiver usando água da rua eu xingo mesmo, não tem 'boi'. Tem casa com quatro famílias que tem de passar a noite e a madrugada toda com uma caixa de água de 80 litros", afirma Marcélia. Ela contou ter perdido uma amizade de mais de 20 anos na semana passada ao xingar uma vizinha que enchia a piscina de plástico para os filhos.

A briga entre moradores por causa do desperdício chegou até a Ilha do Bororé, península da zona sul às margens da Represa Billings. Lá, os cerca de 3 mil moradores são abastecidos com água de poços artesianos. Wilson Cavalcanti, vendedor de 50 anos e espécie de "xerife da água" na ilha, afirma que muitas famílias estão aprofundando a perfuração de seus poços, levando à falta de água nas casas vizinhas e rebaixando o lençol freático da região.

"No desespero de garantir a água do verão, tem muita gente buscando mais no fundo, para garantir a pressão. Isso é uma irresponsabilidade sem tamanho. Quem está fazendo isso também diminui a água do vizinho", reclama Cavalcanti. Ele diz medir, com galhos de árvores, a queda no nível da represa a cada 7 dias. "A represa desce meio metro por semana."

Regras. A mais de 60 quilômetros da Billings, no alto da zona norte, moradores do Jardim Damasceno também criaram regras próprias para o consumo de água. Lavar a calçada é "infração" que pode render xingamentos em público.

"Deu até pena de uma senhora na semana passada que estava lavando a frente da casa. A molecada começou a xingar, chegou um monte de gente para xingar ainda mais, formou uma roda em volta dela, achei que ela ia ser agredida. A mulher está sem sair de casa até hoje", conta a moradora Cláudia Pinto, de 41 anos.

No Parque Taipas, também na zona norte, moradores sem água à noite recorreram a minas localizadas na Serra da Cantareira. Um emaranhado de 800 metros de canos busca a água que brota em uma área na mata. "Foi o jeito para a gente conseguir tomar banho depois que escurece por aqui", afirma Divino Frausino, de 59 anos, um dos moradores mais antigos do bairro. Ele também atua como "xerife" do racionamento. "Aqui na mina não vale pegar água para lavar carro. Esse é um aviso que já dei para todo mundo. Outro dia, quase quiseram bater em um moleque que pegou água da mina para lavar a moto dele."

Perseguidor implacável. Na periferia da zona leste, na região de São Miguel Paulista, quem faz as vezes de "xerife" é o comerciante Gilberto Castilho, de 50 anos. Ele diz ser um "perseguidor implacável" de quem lava carros. "Eu já fui a três lava-rápidos aqui da área e perguntei se era água de reúso que eles estavam usando. Se fosse água da rua, eu iria juntar toda a comunidade para cobrar. Nessa hora temos de ter água para beber, não para lavar carro", diz Castilho.

O medo que alguns motoristas têm de ser xingados por usar água para limpar o carro tem deixado lotado o Lava-rápido Jê, na comunidade União de Vila Nova, na zona leste.

"Ninguém tem mais coragem de lavar o carro com essa falta de água. Aqui, com certeza, quem lavar carro está correndo o risco de apanhar de verdade. Por isso o movimento aumentou tanto", relata Wesley Dias, de 35 anos, dono do estabelecimento.

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