Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Vovós modernos reinventam a velhice

Idosos fogem de estereótipos e, além de curtir os netos, se dedicam a exercícios e à escrita

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2017 | 03h00

Quando não está na academia, malhando três vezes por semana com a mulher em um grupo de idosos, o aposentado Edson Cavaletti, de 66 anos, toma uma cervejinha e vende moedas antigas pela internet. Todo domingo, almoça com os três filhos e três netos. Às vezes durante a semana, algum neto faz uma visita, mas agora que estão crescendo, diz Cavaletti, acabam se ocupando com outras atividades. Além da função de avô ele é, sobretudo, um homem ativo: ocupa o tempo livre com atividades físicas e prazerosas. 

Esta quarta-feira, 26 de julho, Dia dos Avós, é mais um dia comum de treino para ele. Como todas as segundas, quartas e sextas, nos últimos quatro anos, ele estará às 10 horas na academia Bio Ritmo do shopping West Plaza, na zona oeste de São Paulo, fazendo aeróbica e exercícios voltados para alunos acima de 60 anos. Cavaletti e a mulher, Neide Aparecida, de 67 anos, também aposentada, exercitam-se com outros 18 colegas - ou melhor, amigos. De tão próximos, os alunos da turma criaram um grupo no WhatsApp e, quando um deles falta, os outros se preocupam. 

"Sinto que não consigo mais ficar sem as aulas. Se estou de férias ou faço uma viagem, sinto falta de fazer exercícios. Quando tem um grupo de pessoas da mesma idade, a gente acaba se apegando. Perguntamos no grupo por que não veio, se foi viajar... O grupo também acaba incentivando você a participar, a estar junto. Não é só o fato de fazer exercício, mas tem a companhia, a amizade", diz o aposentado.

A cobrança por atividade física regular veio do filho, quatro anos atrás, quando Cavaletti estava perto de se aposentar. "Meu filho achava que faria bem para mim entrar na academia, sair um pouco de casa. Era aquele período próximo da aposentadoria e eu estava procurando o que fazer em casa. Comecei a frequentar e gostei", explica. 

Dos três netos - de 20, 15 e 4 anos -, os dois mais velhos moram perto da sua casa, na Lapa, e também incentivam o avô à prática de exercícios. Nos almoços de domingo, com a família inteira reunida na casa dos avós, a atividade física acaba sendo o assunto principal: "Os netos acabam incentivando. Os filhos, cobrando", ri Cavaletti.

O exercício cotidiano da promotora de justiça aposentada, Ana Martha Smith, de 71 anos, é brincar de pega-pega e jogar futebol com os três netos, com 10, 5 e 3 anos. Ela também aproveita para fazer caminhadas duas vezes ao dia, quando precisa passear com os quatro cachorros. Ana Martha também é ativa intelectualmente: ama ler e escrever. Há quatro anos, dedica-se a escrever, sem pressa, "histórias da vovó". Elabora, inclusive, textos sobre ética em linguagem acessível para crianças. Quer deixar a obra como "legado" aos netos. 

"Comecei a escrever porque, sempre que dormem na minha casa, eles pedem que eu conte uma historinha. Então, escrevo meus textos para deixar um ensinamento. O que aprendemos temos de repassar aos netos. Me ocupo dessa forma", conta a promotora aposentada. Além de escrever para os netos, Ana Martha gosta de passear com eles: na segunda visitaram um aquário, na terça fizeram compras. Quando estão na casa da avó, a turma vai para a cozinha e, de lá, saem tortas e bolos de chocolate construídos a muitas mãos. 

"A coisa mais formidável da vida é virar avó. Funciona como um prêmio que Deus dá para a gente. Eduquei bem meus filhos, que educam bem meus netos. Eles trazem um sopro de vida nova para mim, que estou aposentada, e não saio mais tanto de casa a não ser com eles", diz ela. 

Aos 87 anos, a professora aposentada Neuza Guerreiro de Carvalho também ocupa o tempo investindo em atividades intelectuais, como Ana Martha. Porém, já viu os netos crescerem e casarem. "Procuro acompanhar, mas não interferi em suas vidas. Aproveitei muito a infância dos quatro quando fui avó presente e atuante", afirma. Atualmente, mantém "o contato que a vida corrida permite". "Hoje, dizem meus netos que sou empolgada demais com o que gosto e faço questão de dividir com amigos tudo o que sei", conta Neuza. 

Na maior parte do tempo, a dedicação da professora aposentada é, na verdade, consigo mesma. Aos quase 80 anos, em 2008, ela criou o blog "Vovó Neuza" e assim já publicou mais de 500 textos. Para o site, grava vídeos, faz fotografias e escreve longos posts. É tão conectada, que, em pouco mais de meia hora, respondeu às perguntas da reportagem por e-mail. "Me mantenho ativa procurando sempre projetos novos. E trabalho para manter a mente mais do que ativa", conta ela, que é aposentada desde 1980. 

Neuza é a responsável e coordenadora  de dois cursos da Universidade Aberta à Terceira Idade, da Universidade de São Paulo (USP). Um deles, inclusive, é sobre estímulo à memória. Os encontros para Resgate de Memória Autobiográfica duram quatro meses e, como resultado, os alunos produzem um caderno de Histórias de Vida. Além do blog e dos cursos, continua a estudar "informalmente, mas sempre". Levanta-se todos os dias, pontualmente, às 6 horas. "Tomo o meu café lendo o Estadão, do qual sou assinante. Até as 7 horas, já sei o básico para me atualizar." 

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