Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Volta às aulas na cidade de SP em 2020 é incerta e será definida após nova testagem de alunos

Covas disse que decisão será divulgada em setembro, após testagem de alunos de escolas públicas e privadas; inquérito divulgado nesta quinta aponta que 69,5% dos casos na rede municipal são assintomáticos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 12h55

O prefeito de São PauloBruno Covas (PSDB), anunciou que a data de reabertura das escolas públicas e privadas da cidade será definida em setembro, após a realização da testagem para anticorpos do novo coronavírus em crianças e adolescentes de todas as redes de ensino, o que deve ocorrer até o dia 15. "A partir dessa terceira fase (do inquérito sorológico), a Prefeitura vai decidir se teremos ou não o retorno das aulas neste ano na cidade", declarou em coletiva de imprensa.

O anúncio ocorreu após a gestão municipal divulgar nesta quinta-feira, 27, os resultados do segundo inquérito em estudantes da rede municipal de 4 a 14 anos, o qual apontou que 18,3% têm anticorpos para o vírus, ou seja, 123.694 crianças e adolescentes desse grupo tiveram a doença. Do total, 69,5% foram assintomáticos, percentual considerado alto e que preocupa o Município, que vê os estudantes como possíveis vetores silenciosos de disseminação da doença em um momento de estabilização local da pandemia.

Pela manhã, contudo, antes da divulgação do resultado do inquérito, o secretário municipal da Educação, Bruno Caetano, havia se mostrado otimista em relação ao retorno às aulas em outubro durante o evento Summit Educação, realizado pelo Estadão. 

"Tenho muita esperança do retorno próximo. Acredito que o pior (da pandemia) já passou, que a situação permanecerá estabilizada e que o processo de confiança (com a sociedade) vai se acelerar nas próximas semanas para termos um retorno tranquilo", afirmou.

Na coletiva, Covas voltou a destacar que a decisão pela reabertura das escolas é da Secretaria da Saúde. "A decisão de retorno ou não é uma decisão da área da Saúde. A partir do momento que a área da Saúde decidir, essa é uma decisão que vale para rede municipal, estadual e privada na cidade de São Paulo. A rede municipal está preparada para qualquer que seja essa decisão, seja para retomar esse ano, seja para retomar ano que vem.”

Ele também comentou sobre o veto municipal à reabertura para aulas de reforço em setembro, conforme foi liberado pelo governo estadual. "A segunda fase mostra o acerto da decisão da Prefeitura de São Paulo em não autorizar o retorno às aulas no mês de setembro", disse. ]

O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp),  Benjamin Ribeiro da Silva, critica o adiamento. “Vamos entrar na Justiça (pela reabertura das escolas) enquanto a gente puder”, disse ao Estadão.

Nesta semana, a entidade entrou com um recurso pela retomada das aulas. “Nós estamos prontos”, destaca. “Como você pode atender em curso livre e não pode em escola? Com 30% dos alunos.”

Resultados do inquérito em estudantes aponta desigualdades

Foram coletadas amostras de sangue venoso (com extração de soro) de 2.518 mil alunos entre 18 e 20 de agosto. A prevalência varia pouco entre as faixas etárias: de 4 a 5 anos (19,3%), de 6 a 10 anos (17,2%) e de 11 a 14 anos (18,6%). 

A prevalência de casos é maior entre estudantes pretos e pardos (20%) do que em brancos (16,1%). Essa desigualdade também se repete nas classes sociais mais baixas, com 19,5% dos alunos das classes D e E com resultado positivo para o coronavírus, enquanto que é de 15,5% na classe C. Nesse fase, não houve registro de casos nas classes A e B (que são minoria na rede municipal). 

Outro dado que preocupa a Prefeitura é que 26,3% dos alunos moram com idosos. Isso porque, com a reabertura das escolas, as crianças e adolescentes poderiam trazer a doença para a residência e contagiar pessoas do grupo de risco.

Do total, 76,2% dos alunos declararam praticar "totalmente" o distanciamento social, enquanto 22,5% disseram realizar "parcialmente" e 1,3% "não pratica". Além disso, o levantamento também questionou a respeito do uso de máscaras em locais públicos. O resultado foi: 81,8% "sempre", 10,9% "a maioria das vezes", 4,7% "de vez em quando", 1,1% "nunca" e 1,5% "não frequenta lugar público".

O inquérito sorteou aleatoriamente 6 mil crianças e adolescentes (divididos igualmente entre educação infantil, fundamental I e fundamental II) a partir do cadastro de matrículas da rede escolar municipal, de um total de 675.922. alunos.

1,3 milhão de adultos tiveram doença, diz novo inquérito 

A gestão municipal também divulgou o resultado do quinto inquérito sorológico da população adulta, o qual estima que 11% tem anticorpos para o novo coronavírus, o que representa 1,3 milhão de pessoas, número semelhante ao atestado nas fases anteriores. Do total, 40,6% foram casos assintomáticos. "A tendência (de número de casos) vai se confirmando na cidade, mesmo com todo o processo de reabertura", pontuou o secretário municipal da Saúde, Edson Aparecido.

Regionalmente, a prevalência é maior nas regiões sul (14,1%), leste (12,3%) e sudeste (10,6%) do que nas zonas centro-oeste (5,2%) e norte (8,3%). Em relação à idade, a incidência de casos é maior entre jovens de 18 a 34 anos (13,1%), seguidos de adultos de 35 a 49 anos (12%), idosos com 65 anos ou mais (9,3%) e pessoas de 50 a 64 anos (8,1%). 

Em relação à escolaridade, a prevalência é maior entre pessoas com ensino fundamental (15,6%), seguidas daqueles com ensino médio (11,9%), que não estudaram (9,4%) e têm ensino superior (5,9%). A desigualdade segue na questão de raça, em que negros têm o dobro de chances de ter a doença (15,1%) do que os brancos (7,5%).

Além disso, em relação a trabalho, a incidência da covid-19 é maior entre desempregados (18,1%), pessoas que trabalham fora (11,9%), que não trabalham (10,6%) e que trabalham em regime misto (9%), em comparação aos que estão em home office (4,4%). "O coronavírus jogou luz sobre a desigualdade em São Paulo", destacou Covas na coletiva.

No caso da renda, a doença atinge 18,2% da população da classe D e E, enquanto ocorre em 11,6% da classe C e 4,7% das classes A e B. A prevalência também varia nas diferentes configurações de moradias, sendo maior nas casas com 5 moradores ou mais (16%), em relação as que têm de 3 a 4 moradores (10,1%) e 1 a 2 moradores (8,9%).

Entre os testados, 87,2% disseram utilizar "sempre" máscaras em locais públicos. Os demais declararam usar: "na maioria das vezes" (9,8%), "de vez em quando" (1,9%), "nunca" (0,4%) e "não frequentar lugar público" (0,7%).

De acordo com a Prefeitura, o exame sorológico usado na pesquisa avaliou a prevalência em moradores adultos sorteados aleatoriamente a partir da base de dados do IPTU de 2020, dos hidrômetros de 2017 e do programa Estratégia Saúde da Família (ESF). Foram sorteados 5.760 moradores, divididos em 12 para cada área de abrangência das 472 UBSs da cidade. Ao todo, foram coletadas 2.449 amostras em domicílio. 

A fase anterior do inquérito para crianças e adolescentes foi focada no mesmo grupo, o qual apontou que 16,1% tem anticorpos para o novo coronavírus, dos quais 64,4% foram de casos assintomáticos. O resultado motivou a Prefeitura a vetar a reabertura parcial das escolas para atividades de reforço. 

Ao todo, foram realizados sete inquéritos sorológicos. No anterior de população adulta, divulgado em 13 de agosto, 10,9% das pessoas com 18 anos ou mais tinham anticorpos para o novo coronavírus.

Na coletiva, ainda foi anunciado um acordo com a Faculdade de Medicina da USP para a realização de pesquisas para a preparação e organização das unidades públicas de saúde para um possível aumento de casos relacionados a sequelas da covid-19, tais como problemas respiratórios, cardiocirculatórios e neurológicos, doenças renais, lesões, transtornos de saúde mental, problemas nutricionais e síndrome de fragilidade, dentre outros.

A população considerada mais vulnerável terá atenção especial, tais como crianças com mais de dois anos, idosos, população negra com doença falciforme, hipertensão ou diabete, gestantes, pessoas com doenças imunológicas e moradores com DCNT (obesidade, hipertensão, diabete, tumores, doença renal, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crônicas).

Governo de SP permite reabertura de escolas em setembro, mas decisão é das prefeituras

reabertura de escolas está permitida pelo governo estadual para a partir de 8 de setembro nas regiões que estão em fase amarela há mais de 28 dias, caso da cidade de São Paulo. Durante o anúncio da medida, o governador João Doria (PSDB) chegou a ressaltar que o retorno é opcional e decidido pelas prefeituras.

A retomada em setembro é focada em atividades de acolhimento, recuperação, atividades físicas, tutoria e aulas em laboratório, enquanto a data oficial de retorno é 7 de outubro. O funcionamento está condicionado ao cumprimento de protocolos sanitários.

Em Santo André, Mauá, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires, os prefeitos já anunciaram que a reabertura das escolas nas redes públicas municipais está totalmente descartada no ano letivo de 2020. Em reunião realizada no dia 11, o Consórcio Intermunicipal Grande ABC definiu que as aulas presenciais das redes pública e privada vão voltar em conjunto, na mesma data./COLABOROU RENATA OKUMURA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.