Volta ao centro faz crescer desigualdade em relação à periferia

Fenômeno apontado por pesquisa da USP contraria tendência vista no passado; retorno de quem foi para condomínios de luxo é uma razão

NATALY COSTA, RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2013 | 02h04

A separação entre os bairros ricos e pobres da Grande São Paulo está cada vez maior. Dados dos últimos dois Censos Demográficos (2000 e 2010) mostram que, na última década, a renda cresceu mais nos bairros do centro expandido da capital do que nas periferias da região metropolitana.

Até mesmo os bolsões de riqueza mais afastados - como os condomínios Alphaville e Granja Viana, por exemplo - perderam moradores, que agora preferem morar em lugares mais centrais, perto de onde tem mais infraestrutura, oportunidades de negócios, estudos e serviços.

Os dados foram compilados em um estudo feito pelo arquiteto Renato Cymbalista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo, em parceria com o geógrafo Sylvain Souchaud, do Institute de Recherche pour le Developement (IRD), da França.

Eles mostram que, apesar da renda dos domicílios ter aumentado em todas as regiões da Grande São Paulo - o crescimento médio foi de 78%, sem contar a inflação -, esse crescimento foi bem maior em certos bairros do centro expandido, como Vila Leopoldina (138%) e Barra Funda (142%), na zona oeste, e Vila Mariana (122%), na sul.

Três fatores explicam a concentração das elites do lado de dentro dos Rios Tietê e Pinheiros, sobretudo na região sudoeste, segundo os autores. O primeiro é o encarecimento geral dos imóveis e dos serviços domésticos, que leva mesmo pessoas de renda maior a procurarem imóvel de menor metragem.

Em segundo lugar, está uma mudança no desejo das elites, que passou a preferir bairros de uso misto e completos, onde se pode fazer mais coisas a pé, em detrimento dos bairros inspirados em subúrbios americanos. Por último, há a busca por segurança em prédios mais bem vigiados, que atrai principalmente ex-moradores de casas.

Distribuição. "O que aconteceu foi exatamente o oposto do esperávamos", afirma Cymbalista. Segundo ele, a diminuição da desigualdade de renda observada no Brasil entre 2000 e 2010 e os vários investimentos públicos nas periferias feitos na última década eram motivos para se imaginar que ocorreria uma maior distribuição das elites pelo território da cidade.

"É certo que, em muitos aspectos, os pobres estão em situação melhor em São Paulo do que há uma década. Mas o desafio da dualidade centro versus periferia não está sendo vencido. Enquanto a sociedade reduziu desigualdades, a cidade as aumentou", afirma.

Retorno. De acordo com Cymbalista, essa mudança quebra uma tendência histórica da capital paulista que data do fim do século 19, quando as elites passaram a procurar bairros cada vez mais longe da cidade. Esse movimento se iniciou com loteamentos fora do centro (como o bairro de Higienópolis e a Avenida Paulista, na década de 1890), passou pela criação de bairros como o Morumbi e culminou com os condomínios de alta renda fora do município de São Paulo. "Ao que parece, a elite que atravessou o Rio Pinheiros em décadas passadas vem atravessando o rio de volta, rumo a posições mais centrais", explica.

Para inverter esse fenômeno e aumentar a distribuição das elites pelo território da Grande São Paulo, o arquiteto defende a criação de polos de empregos e negócios nas periferias. "Será preciso ter muita criatividade, muito investimento e uma mão muito firme com o mercado imobiliário, que tende a concentrar investimentos de qualidade nos locais onde há interesse das elites."

Mesmo com a tentativa de se criar bairros autossuficientes afastados do centro, a necessidade de ir e vir por motivos diversos - ir ao médico, visitar amigos, sair à noite - continuou. Antes atraídos pela qualidade de vida nos bairros mais afastados, os paulistanos que podem pagar tanto uma casa em Cotia quanto um apartamento no centro expandido optam pela segundo, ainda que a contragosto.

Se até um ano atrás o executivo paulistano Jaques Grinberg Costa, de 35 anos, não tinha problema para dormir, hoje ele duela com a insônia. Saiu do meio do verde e do silêncio absoluto de um condomínio na Granja Viana para um apartamento em Higienópolis, perto de hospital e faculdade. Em um segundo momento, mudou de novo, desta vez para a Barra Funda. Continua atormentado com o barulho da rua, dos carros, dos ônibus passando na porta. "Eu amava morar na Granja. Até o momento em que comecei a perder duas, três horas e meia no trânsito para o meu escritório, no Largo do Paiçandu, no centro de São Paulo", conta. "Às vezes, dormia em hotel no centro para não pegar o trânsito da volta. Cheguei até a cogitar pegar helicóptero, mas era muito caro. Pensei: 'isso não é vida'." Hoje, Costa está a 5 km do trabalho e perto do metrô.

O que Costa fez, a psicóloga Paulina Ghertman quer repetir. Aos 70 anos, há 20 moradora de um condomínio em Cotia, sente falta do que era a região quando ela chegou - e maldiz os novos tempos. "Isso aqui era outra coisa, uma tranquilidade. Agora, estou procurando apartamento em São Paulo de volta simplesmente porque não aguento mais o trânsito da Raposo Tavares."

Além de atender pacientes na Granja Viana, Paulina tem um consultório em Pinheiros, na zona oeste da capital, e é para lá que ela quer ir. "Para perto do Parque Villa-Lobos, talvez, para continuar com verde por perto, fazendo minhas caminhadas."

Mas não são apenas os moradores da Grande São Paulo que estão fazendo o movimento de volta. Quem mora em bairros mais afastados da capital também quer pular para dentro do limite desenhado pelas Marginais do Pinheiros e do Tietê. É preciso ter dinheiro - o valor do metro quadrado em bairros como Vila Madalena chega a R$ 11 mil.

"Tinha uma vida tranquila com meus pais em Santo Amaro, em uma casa boa e grande. Mas trabalhar todo dia no centro era tão desgastante que me fez usar minhas economias para comprar um apartamento de 60 metros quadrados na Vila Madalena", conta o advogado Emmanuel Cisneiros, de 30 anos. "Hoje em dia é preciso morar perto de tudo, do trabalho, da namorada, dos locais que você frequenta. Só assim dá para ter alguma qualidade de vida."

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