Você tira uma foto e ele inventa uma história

Publicitário da Vila Madalena faz sucesso com site que propõe obras de ficção a partir de imagens enviadas por leitores

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h00

Uma imagem vale palavras. Muitas vezes, menos do que mil - até para desmentir o ditado popular, fugir do óbvio. Quinze dias atrás, o publicitário Pedrinho Fonseca colocou na internet o site Loja de Histórias (www.lojadehistorias.com). Uma loja diferente, onde nada se vende, nada se compra; troca-se. Em troca de uma boa fotografia, um texto de ficção.

Em tempos de redes sociais, compartilhamento fácil de informações e um apelo inevitável das imagens - afinal, celulares são câmeras portáteis e o Instagram está aí para provar o fenômeno, em cores ou em tons de sépia -, o sucesso foi instantâneo. Em duas semanas, Pedrinho recebeu 294 fotos. Não só do Brasil, mas também de gente que vive na Argentina, em Portugal e nos Estados Unidos.

Sua meta é escrever um texto por dia. "Mas na última segunda, não resisti e postei quatro", comenta. Seu único compromisso é com a ficção - totalmente livre dos fatos reais que tenham a ver com a foto. O aviso está lá no próprio site: "Que história é essa? É o que tentarei descobrir. Não me conte nada sobre a imagem que me enviou. Nada. A brincadeira é justamente essa: vou escrever um texto, ficcional, sobre a sua imagem."

O único risco, por assim dizer, é que o texto nunca vai ser uma legenda da foto. "Vou desconstruir a imagem por meio de minha ficção", explica Pedrinho. "Ou seja: aquela foto bonitinha pode resultar em um conto trágico ou qualquer outra coisa."

E foi assim que a pungente imagem de duas velhinhas sorvendo champanhe virou o poético diálogo À Vida. "Permaneceram em silêncio durante a queda de dezoito folhas./ - Foi aqui. Bem aqui./ - Nessa mesa. Lembra que Estela estava bem aqui à frente?/ - Ela faz falta. (...)".

Ou uma antiga foto de casamento se transformou no conto Discurso, Discurso, Discurso. "Fiz o tradicional sinal com as mãos de para com isso. De nada adiantou. Estranho olhar ao redor e ver todos, absolutamente todos os que importavam, bem ali. Segurei firme a mão de Nara. (...)".

Uma imagem com o guidão de uma bicicleta na perspectiva do ciclista inspirou o Após o Sinal, Deixe o Seu Recado - um conto veloz, com ritmo e intensidade próprios. "Bruna, sou eu. Tô saindo de casa, vou entrar no Ibira para cortar caminho. Tentei te ligar duas vezes, enviei SMS, você viu? Seguinte. Eu não vou deixar você ir, você não pode viajar (...)"

Mudança de vida. Nascido no Recife, filho de um jornalista e de uma psiquiatra, Pedrinho vive em São Paulo desde 2006. Casado com a consultora de estilo Luanda Barros Fonseca, de 30 anos - com quem tem os filhos João, de 4 anos, e Irene, de 2 meses -, mora na Vila Madalena.

Pedrinho quer seguir com o projeto da ficção inspirada por fotos até o último dia deste ano. Então colocará um ponto final. "Pretendo transformar tudo em livro." Será o segundo dele, que em 2007 lançou a reunião de crônicas A Língua do P. Mas, desta vez, um marco em sua trajetória, o início de uma realidade como escritor profissional.

Isso porque Loja de Histórias é o primeiro projeto de uma nova fase de vida de Pedrinho. Aos 37 anos, ele decidiu trocar a estabilidade de uma carreira como publicitário pelas incertezas da profissão de escritor. Em junho, pediu demissão da grande agência na qual trabalhava. "Decidi ser escritor na maior parte do tempo e atuar como consultor na área de publicidade como freelancer. Era uma vontade que eu tinha e se consolidou no início deste ano: a busca de uma realização profissional", explica. "Quero que a minha palavra valha também fora do campo publicitário."

Os que enviaram fotos a Pedrinho, ao menos, parecem estar aprovando o projeto. "É muito gostoso ver um trabalho ganhando outros sentidos à revelia do que você inicialmente planejou", conta Pio Figueiroa, que é fotógrafo profissional e mandou o clique que deu origem ao conto Do Suicídio ao Soluço. "Uma fotografia sempre guarda histórias inéditas."

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