Você fala nheengatu?

Se não fala, vai ter muita dificuldade para viver em São Paulo, transitar ou mesmo conversar. Vá que você coma algo que lhe faça mal às pacueras ou que tenha um parente muquirana que lhe negue uns trocados quando precise. O que fará você quando alguém lhe disser que está com dor nos óio, coceira na orêia, brigado com a muié, palavras portuguesas com pronúncia nheengatu?

José de Souza Martins, de O Estado de S.Paulo

09 Abril 2012 | 03h05

Na metrópole, há 34 estações com nome nheengatu, sem contar os nomes de ruas e os nomes de pessoas, como Iara ou Maíra. Quem não fala nheengatu nem pode tomar os trens, usar o metrô ou utilizar os ônibus da cidade. Como vai dizer aqueles nomes, escritos nessa língua, para comprar um bilhete ou pedir uma informação?

Não poderá transitar pela Rua da Tabatinguera, a mais antiga de São Paulo, de quando a gente de Piratininga fazia fuxico em nheengatu e ia para a beira do Rio Tamanduateí buscar tabatinga para caiar as casas. Não poderá cruzar a ponte para ir à Mooca, não por medo dos tamanduás. Não poderá nem mesmo passear pelo Vale do Anhangabaú, sob o qual passa o ribeirão em que outrora Anhangá assombrava os índios com seus malefícios e sua água envenenada, que, mais tarde se descobriu, continha arsênico. Vade retro! E como morar na Vila Prudente e estudar na Cidade Universitária, tendo que cruzar a Mooca, o Anhangabaú e o Butantã? Só falando nheengatu. E menos ainda passar o domingo com a família no Ibirapuera.

A Mooca em que, no século 17, o opulento Manuel João Branco criava gado, que administrava o ouro do Jaraguá, em nheengatu, e o gastava em português. O mesmo Manuel João que circulava em Lisboa carregado numa rede paulista por índios levados de São Paulo, aos quais dava ordens em nheengatu, quando para lá foi levar um pequeno cacho de bananas, de ouro, para presentear e bajular o rei de Portugal, Dom João IV, o Afortunado.

Se viajar de trem e não conseguir relaxar a língua para dizer os nomes nheengatu, não chegará ao Ipiranga, Tamanduateí, Utinga, Capuava, Guapituba, Paranapiacaba ou, no lado oposto, Piqueri, Pirituba, Jaraguá, Caieiras, Jundiaí. Nem sei como Dom Pedro foi proclamar a Independência verde e amarela no rio vermelho do Ipiranga, se não falava nheengatu. Ou falava e não sabia?

E coitado de quem tiver de ir a Carapicuíba, Itapecerica ou Embu. Cuidado, é só pedra e cobra! Se for a Mogi das Cruzes por Itaquaquecetuba, Itaquera, Guaianases, dá no mesmo, pedra e cobra. A cobra de Mogi o esperará nas Cruzes.

Mas, se você consegue falar esses nomes todos e não se perde, saiba que apesar da proibição da língua nheengatu pelo rei de Portugal, em 1727, você é bilíngue: pensa em português, língua estrangeira, e fala em nheengatu, a língua brasileira.

Pena que na escola não nos digam isso. O fantasma do rei de Portugal ainda manda em nossa educação.

Mais conteúdo sobre:
JOSÉ DE SOUZA MARTINS nheengatu

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.