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Fernando Reinach
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Voando em V com os íbis carecas

Você já deve ter visto pássaros formando um enorme V nos céus. Na frente vai um único pássaro, a ponta do V. Logo atrás, um de cada lado, vão dois pássaros, cada um ladeado por mais pássaros, até formarem um enorme V com até dezenas de pássaros em cada perna do V. Pássaros migratórios adotam esta formação nos longos voos migratórios e assim impressionam milhões de terráqueos que, como eu, adorariam poder voar.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2014 | 02h06

Os cientistas desconfiam que voar em V é uma maneira de economizar energia. A razão da desconfiança vem do que conhecemos sobre o mecanismo de funcionamento de uma asa. As asas, ao acelerar o ar na sua superfície superior, produzem a força necessária para manter pássaros e aviões no ar. Mas logo atrás das asas o ar se move para baixo produzindo uma força que empurra qualquer objeto em direção ao solo. Por esse motivo voar exatamente atrás da asa de um pássaro ou avião é uma péssima ideia, você vai ser puxado para baixo e vai gastar muito mais energia para se manter voando na mesma altura. Mas o fluxo de ar que passa pelas asas também forma uma turbulência muito peculiar exatamente na ponta da asa. Neste local se forma uma espécie de redemoinho horizontal, onde o ar se move em círculos logo atrás da ponta da asa (é aquela nuvenzinha branca, como um longo rabo, que as vezes podemos observar atrás das pontas das asas dos aviões).

Um objeto colocado de um lado desse redemoinho é puxado para baixo, mas se for colocado exatamente do outro lado do redemoinho é puxado para cima e portanto necessita de menos energia para se manter voando. Os cientistas suspeitam que o pássaro que vem atrás se coloca exatamente onde o fluxo de ar é ascendente e aproveita o fluxo para economizar energia. O difícil é demonstrar que isto é o que realmente ocorre durante o voo.

Pilotos de aviões de caça já demonstraram que o fenômeno existe. Com muita habilidade é possível voar exatamente neste tipo de formação em V. Para isso os pilotos colocam a ponta da asa esquerda do avião que vem atrás exatamente atrás da ponta da asa direita do avião que vai na frente, no local em que os cientistas preveem que existe o fluxo de ar vertical. Voando desta maneira arriscada e medindo o gasto de combustível, foi possível demonstrar que se a formação em V for perfeita, o avião de trás reduz em 18% o gasto de combustível.

No caso de aviões a dificuldade é manter a asa na posição exata. Mas lembre que os aviões não batem asas.

No caso dos pássaros, o redemoinho horizontal sobe e desce com o bater das asas. Se você pudesse ver o redemoinho, você observaria que ele tem uma forma ondulada logo atrás da ponta da asa. O pássaro que vem atrás não somente tem de ficar na distância correta, mas tem de bater suas asas de modo a aproveitar o redemoinho tanto quando o redemoinho está mais alto (o pássaro da frente está com a asa em cima) quanto quando ele está baixo (o pássaro da frente fica com a asa embaixo). Para colocar a asa na posição correta o pássaro de trás tem de estar corretamente posicionado e, além disso, tem de bater as asas no mesmo ritmo, mas com um pouco de atraso, em relação ao pássaro da frente. Só dessa maneira ele pode aproveitar a energia do redemoinho. Foi exatamente isso que os cientistas conseguiram demonstrar em um experimento brilhante.

O Geronticus eremita (chamado de íbis-calva em Portugal) é um pássaro europeu em risco de extinção. Ele está sendo criado em zoológicos e reintroduzido no meio ambiente. Um grupo de 14 íbis-calvo nasceu no Zoológico de Viena, na Áustria, em março de 2011. O primeiro ser vivo que eles viram ao nascer foi um cientista, e a partir desse dia eles passaram a acreditar que o cientista era sua mãe (este fenômeno se chama "imprinting" e foi descoberto por Kornad Lorenz no início do século 20). O cientista passou a ensinar tudo aos pássaros. Usando um parapente (paraquedas com motor), o cientista ensinou os pássaros a voar nos arredores de Viena. Eles seguiam papai cientista quando ele decolava no seu parapente. Inicialmente os voos duravam 1 a 4 horas e até 5 km. Durante esses voos, os pássaros se adaptaram a voar com uma pequena caixa cheia de instrumentos eletrônicos amarrada ao peito. A caixa pesava 23 gramas, os pássaros mais de um quilo e portanto não se atrapalhava o voo.

Essa pequena caixa continha um GPS muito preciso (precisão de 30 cm), um acelerômetro, capaz de medir o subir e descer do corpo durante cada batimento da asa, um altímetro e um rádio que mandava as informações para os computadores dos cientistas. As 14 aves se acostumaram a voar junto ao parapente durante meses. Elas estavam se preparando para aprender a migrar de Salzburgo, na Áustria, para Orbetello, na Itália, como faziam seus ancestrais. Antigamente as novatas acompanhavam seus pais na primeira migração, mas esses filhotes teriam de acompanhar seu pai adotivo, um cientista pilotando um parapente.

Finalmente chegou a época da migração e papai cientista e seus 14 filhotes iniciaram o voo para a Itália. Eles voavam por algumas horas todos os dias, pousando, tanto papai quanto filhotes, para descansar a cada noite. Durante o voo, as aves adotavam naturalmente uma formação em V e (inteligentemente) excluíam papai parapente da formação, que voava a uma distância de 150 metros, coletando continuamente os dados enviados de cada um dos 14 pássaros e filmando, orgulhoso, seus filhotes durante a primeira migração.

Nos meses seguintes, os cientistas analisaram cuidadosamente os dados enviados pelos sensores carregados pelos pássaros e os filmes correspondentes. A descoberta é simples, mas importante. Foi possível determinar exatamente a posição de cada pássaro em relação aos outros durante os voos em V. Com esses dados, os cientistas puderam comprovar que os pássaros se colocam exatamente onde deveriam estar para aproveitar o turbilhão formado pela ponta das asas do vizinho que voa à frente. Mais que isso, quando os pássaros mudam de posição, evitam voar por trás da asa do vizinho, evitando o fluxo de ar descendente.

Usando os filmes e os dados dos acelerômetros foi possível verificar que os pássaros sincronizavam o bater das asas, mas deslocavam temporalmente os movimentos de modo que a asa, quando ia para baixo e quando ia para cima, sempre permanecia na parte do turbilhão que ajudava o voo.

A conclusão é que durante seu voo os Geronticus eremita adotam uma formação em V precisa. A posição de cada ave em relação à outra é regulada com uma precisão de centímetros e o bater de asas é sincronizado com uma precisão de décimos de segundo. Tudo isso para garantir que elas aproveitem ao máximo o turbilhão ascendente provocado pelos vizinhos e evitem o turbilhão descendente. Nos próximos anos, quando migrarem novamente, papai parapente tentará medir o quanto de energia seus filhotes economizam voando em V.

Esses resultados demonstram que os pássaros desenvolveram uma capacidade ímpar de economizar energia durante seus voos. Sem dúvida sabem voar de maneira muito mais eficiente que as máquinas construídas pelos seres humanos.

Meu medo é que esta descoberta científica se transforme em uma nova tecnologia adotada pela aviação comercial. Já imagino dezenas de grandes aviões cruzando os céus em enormes formações em V para economizar combustível. Além do risco de colisão, já imagino o anúncio na cabine: "Senhores passageiros, desculpem o atraso, estamos circulando em torno do aeroporto, esperando os outros membros do bando se juntarem a nós para iniciarmos nossa viajem rumo a Paris".

* É BIÓLOGO MAIS INFORMAÇÕES: UPWASH EXPLOITATION AND DOWNWASH AVOIDANCE BY FLAP PHASING IN ÍBIS FORMATION FLIGHT. NATURE VOL. 505 PAG 399 2013

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