Vizinhos tentam barrar escola no Parque Augusta

Antiga reivindicação de moradores, área verde na Caio Prado foi autorizada por Kassab em 2008, mas não saiu do papel

Márcio Pinho, Marici Capitelli, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Moradores da região central e dos Jardins, na zona sul, tentam barrar a construção de uma escola municipal de educação infantil que deverá ocupar um terço do terreno previsto para abrigar o Parque Augusta.

A criação da área verde é uma antiga reivindicação dos moradores da região. O espaço, de 24 mil m², pouco mais do que dois campos de futebol, fica entre as Ruas Augusta, Caio Prado e Marquês de Paranaguá, e é um dos últimos redutos de mata atlântica da cidade. Há no local cerca de 600 árvores, segundo levantamento dos moradores, entre elas araucárias, além de espécies de pássaros variadas. O nome Parque Augusta não é oficial. Foi dado pelos moradores.

Em 2008, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) determinou por decreto que o terreno, que pertence a uma incorporadora, passava a ser de utilidade pública, com o objetivo de abrigar o parque. Atualmente, um estacionamento funciona no local. Em maio deste ano, a Prefeitura reservou 7,6 mil m², cerca de um terço do terreno, para receber a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Patrícia Galvão. O colégio está hoje em um imóvel alugado, após ter sido retirada em 2007 da Praça Roosevelt para a revitalização da área.

A advogada Célia Marcondes, presidente da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César (Samorcc), diz que os moradores estão indignados com a perda de um espaço natural em uma região sem verde. "Nossa batalha já dura 10 anos. Temos o direito de preservar", afirma. Para ela, o terreno não é tão grande para permitir cortes, e a redução do parque vai transformá-lo em uma praça.

Outra preocupação é com a eventual retirada de árvores para a construção do colégio. Isso porque a Prefeitura já comunicou no Diário Oficial da Cidade a poda ou remoção de 27 árvores do terreno. Anunciou ainda a contratação de uma empresa que fará um inventário das árvores do local.

Segundo a Secretaria da Educação, responsável pela escola, as árvores eventualmente retiradas serão replantadas em outro local, no terreno ou fora dele.

Hoje, a Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César (Samorcc) deve levar o assunto para discussão com vereadores e com secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge. Procurada, a secretaria não se manifestou e tampouco deu informações sobre as ações a serem realizadas no terreno. Apenas afirmou que existe a intenção da implantação do parque e que estudos sobre o assunto estão sendo feitos.

Luta antiga. A área da Augusta com a Caio Prado é há anos palco de indefinições. Após abrigar o colégio francês feminino Des Oiseaux, no início do século passado, foi doado à Prefeitura. Em 1996, o terreno passou para as mãos do empresário e ex-banqueiro Armando Conde. Seguiram-se tentativas de construir um supermercado no local e torres residenciais e comerciais. O terreno foi tombado pelo patrimônio histórico, e os projetos não prosperaram.

Ontem, o Estado procurou a incorporadora de Armando Conde, a Campos do Conde, mas não teve retorno. Procurada, a Secretaria de Negócios Jurídicos tampouco respondeu sobre o processo de desapropriação do imóvel.

Do outro lado da batalha pelo futuro do imóvel estão os moradores. Há cerca de cinco anos, eles criaram o movimento SOS Parque Augusta e o Comitê Aliados do Parque. Sérgio Carreiras, de 52 anos, um dos integrantes, é contra a construção da escola. "O espaço é um pulmão verde para a região e a cidade. Tem de ser preservado. Não somos contra a educação, muito pelo contrário, mas é uma "deseducação" destruir o meio ambiente", diz.

Pioneira na defesa do terreno, Iraí Tamega, de 68 anos - 8 deles na vizinhança -, síndica de um prédio na Rua Caio Prado, afirma que "se uma folha for retirada", os moradores vão se mobilizar para evitar esse "assassinato" da mata atlântica. Carlos Bastocellis, que também é síndico de um edifício da região, diz que a área é um refúgio onde há só "concreto e asfalto". "Quando queremos passear, andamos no Minhocão. Precisamos manter o verde que resta", afirma.

PONTOS-CHAVE

Extensão

24 mil m²

tem o espaço que, desde 2006, conta com iniciativas para transformá-lo em parque,

incluindo projetos na Câmara

História

De 1907 a 1967, o colégio católico feminino Des Oiseaux funcionou no terreno. O prédio foi demolido nos anos 1970, mas o bosque foi tombado em dezembro de 2004.

Valor

A declaração de utilidade pública do terreno, de valor estimado inicialmente em R$ 30 milhões pelos proprietários do terreno, foi solicitada pela Secretaria Municipal do Verde.

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