Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Vizinhos se mobilizam para dar nova vida a praças e bairros paulistanos

Cansadas de esperar solução do poder público, associações e escolas mapeiam demandas comuns e fazem vaquinhas para transformar o entorno; ‘Fazemos isso porque é um espaço nosso, que queremos ver bem cuidado’, conta um morador. Prefeitura planeja 5 mil parcerias

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Mato alto, bancos e brinquedos quebrados, lixo acumulado e até uma árvore caída há mais de um ano no meio de uma trilha. Moradores, cansados de esperar por uma solução da administração municipal, decidiram se unir e colocar a mão na massa para revitalizar praças e parques de seus bairros.

A Praça Horácio Sabino, na Vila Madalena, zona oeste da capital, foi totalmente reformada por um grupo de moradores. Eles trocaram bancos, brinquedos, instalaram rampas de acesso e melhoraram a iluminação do local. A ideia surgiu em 2012 de um grupo de pais de crianças pequenas que se encontravam quase todos os dias ali.

“A gente chegava com os bebês e encontrava a praça em estado ruim, mas gostávamos de ficar naquele espaço. Ficamos amigos e nos organizamos para, de tempos em tempos, cada uma ligar para a Prefeitura para solicitar a poda da grama, retirada de lixo. Às vezes dava certo, às vezes não. Foi quando percebemos que poderíamos nos organizar para fazer algo maior”, explicou Thais Hannuch, de 34 anos, uma das fundadoras da Associação Praça Horácio Sabino.

Nas conversas com frequentadores, descobriram que já havia um projeto de revitalização e decidiram atualizá-lo. Após criar a associação e de tratativas com a Prefeitura, conseguiram em outubro a autorização para iniciar as obras, de cerca de R$ 1 milhão, que foram financiadas por um fundo dos moradores.

A praça foi reinaugurada, após a revitalização, no fim de maio. “Foi a realização de um sonho ver um espaço tão querido ficar ainda melhor”, disse Thais. Com a reforma, atraiu mais público. À tarde, são comuns piqueniques e festas de aniversário nos fins de semana.

A dona de casa Carolina Galico, de 40 anos, não ia à praça antes da reforma por causa da sujeira e do receio de os filhos de 8 e 3 anos se machucarem em brinquedos quebrados. “Mas, agora, está uma delícia. Tudo bem cuidado e limpinho. Atraiu mais frequentadores e, então, são mais crianças para meus filhos brincarem”, contou, enquanto a caçula subia em uma árvore com outras crianças. 

Para viabilizar a reforma, a associação assinou termo de cooperação com a Prefeitura, em que fica responsável pela manutenção do espaço por três anos. 

O Parque Cemucam (Centro Municipal de Campismo), em Cotia – na Grande São Paulo, mas gerido pela Prefeitura da capital –, teve contratos de manutenção e segurança encerrados no segundo semestre de 2016.

Por isso, se formou a Associação dos Amigos do Parque Cemucam, para fazer mutirões de retirada de lixo, corte de grama e manutenção das pistas de caminhada, mountain bike e aeromodelismo. Eles também se revezam para ficar na portaria.

“O pessoal fica chateado porque paga imposto, mas tem de fazer vaquinha até para comprar material de limpeza. Fazemos isso porque é um espaço nosso, que queremos ver bem cuidado”, disse o empresário Francisco Élio Oliveira, de 54 anos, presidente da associação. 

Há uma semana, a associação retirou uma árvore caída há um ano na pista de mountain bike. Fizeram campanha para juntar R$5 mil e contratar o maquinário de remoção. 

A Secretaria do Verde e Meio Ambiente disse que a atual gestão recebeu vários parques sem contratos de manejo, zeladoria e vigilância. Os primeiros restabelecidos foram os de vigilância, sendo o Cemucam um dos contemplados – tem hoje 9 vigilantes diurnos e 7 noturnos. Os demais contratos, acrescentou, estão em processo de licitação, mas não informou prazos. 

Educação. Duas escolas viram em praças malcuidadas uma chance de aprendizado. No Colégio Santi, a ideia de revitalizar a Praça Santíssimo Sacramento, no Paraíso, zona sul, surgiu de alunos de 6.º a 9.º ano em um projeto de sustentabilidade.

Antes da intervenção, conversaram com moradores e comerciantes para saber o que gostariam na praça. A demanda era por mais plantas e grama nos canteiros, sombra e limpeza. 

Em um mutirão, em parceria com a Prefeitura Regional, plantaram mudas, fizeram horta e limparam o local. Taxistas da praça já se ofereceram para regar as novas plantas. “Trouxe muitos aprendizados para os alunos: outro olhar para a cidade, as demandas coletivas, lidar com o poder público”, afirmou a diretora Adriana Cury. 

No Colégio Stance Dual também foram os alunos que definiram a revitalização da praça próxima da escola – entre as Ruas Avanhandava e Acaraú, na Bela Vista, região central. Desde 2016, eles mapeiam demandas para o espaço e desenvolveram um projeto para parquinho, horta e nivelamento do piso. A revitalização deve custar R$ 50 mil. Como a Prefeitura disse não ter verba para o projeto, os adolescentes buscaram parceiros e vendem até doces e rifas para arrecadar o valor. 

Prefeitura planeja desburocratização e 5 mil parcerias

A Prefeitura de São Paulo informou que, com o programa Adote uma Praça, está tentando "desburocratizar" o processo e incentivar esse tipo de ação entre empresas e moradores. Segundo a gestão municipal, desde janeiro, 87 praças foram adotadas – ao todo, há 505 nesse modelo. 

"O objetivo da nova gestão é que 5 mil áreas verdes, de todas as regiões da cidade, sejam conservadas por parceiros durante os quatro anos da gestão. O programa requer que empresas, por meio de Termos de Cooperação, assumam o compromisso de cuidar do espaço durante um ano", afirmou a Prefeitura de São Paulo, em nota oficial. 

Em troca, quem adotar o espaço poderá colocar uma placa no local com o nome da empresa ou da família. 

2 perguntas para Lara Freitas, arquiteta, urbanista e mestre em Gestão Urbana

Esse tipo de mobilização se deve mais à noção maior de pertencimento à cidade ou à necessidade de preencher lacunas do poder público? As cidades vem ganhando complexidade e, com isso, cresce a dificuldade do poder público de dar conta das novas demandas. O que alguns grupos começam a perceber é que, além da falta de capacidade, há a necessidade de entender o local e como ele pode ser utilizado. Porque, mesmo que a gente vivesse em condições como na Europa, em que os espaços públicos são tratados com primor, eles só têm essa condição por causa da presença e cuidado de moradores e usuários. O que ocorre, infelizmente, é que, com a deficiência do poder público, nossa atuação ganha mais peso e pode ser o único modo de mudança do espaço. 

Um espaço público bem cuidado traz maior consciência de responsabilidade com a conservação? A desordem gera desordem. Um espaço bem cuidado incita que as pessoas se comportem de uma boa maneira, direciona o uso para algo positivo. Em um espaço que já está sujo, as pessoas não ficam inibidas de jogar mais um papel de bala no chão. É uma resposta psicológica do ser humano.

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