Vizinhos de prefeito temem pelo sossego

Casa no Jardim Europa já virou destino de manifestantes, incluindo ciclistas e professores

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2016 | 04h00

A tranquila rotina dos moradores da Rua Itália e de suas travessas adjacentes, no Jardim Europa, está ameaçada. O que acontece é que o local é endereço do prefeito eleito de São Paulo, João Doria (PSDB). E, de uma hora para outra, passou a ser ponto visado por manifestantes.

Três dias após sua eleição, no dia 5, para ali foram dezenas de ciclistas preocupados com o que sua gestão vai fazer com a política de ciclovias ampliada pelo atual prefeito Fernando Haddad (PT). Ontem, um grupo com cerca de 50 sindicalistas e professores foi ao local em marcha, para cobrar que sejam chamados os aprovados nos concursos mais recentes. Saíram após a promessa de um assessor de análise do pedido.

“Na noite em que os ciclistas vieram aqui, fecharam a rua. Foi uma coisa muito atípica”, diz a aposentada Célia Brandini de Palma, que tem 73 anos e mora há mais de 50 anos na esquina entre as Ruas Turquia e Itália. “Se isso se tornar rotina, não vai ser muito agradável.”

Célia tem uma ligação “religiosa” com a família de Doria: devota de Nossa Senhora, ela leva uma vez por mês a capelinha itinerante da santa para a casa vizinha da lista, no caso, a do prefeito eleito – na capital, são 6,7 mil imagens que circulam por 200 mil lares.

“Já estávamos conscientes de que isso poderia acontecer”, comenta a dona de casa Monica Moraes Dantas, de 60 anos, que mora ali há 25. “Todos têm direito a protestar, mas o nosso receio é de que essas coisas acabem em depredação.”

Rotina. Caseiro do imóvel fronteiriço ao de Doria, Valter Kozakiewski, de 40 anos, acha que manifestações futuras vão se tornar rotina “dependendo do que ele (o tucano) falar ou fizer por aí”. “E não tem jeito: nenhum vizinho gosta de barulho e confusão na porta, não é?”, diz. “Se fizer uma boa administração, não vai ter rolo nenhum.”

O vigilante Osmar Marcos Brito, de 54 anos, que atua em uma guarita na Rua Itália, é da mesma opinião. “O grande problema dos políticos é quando prometem uma coisa e, quando estão lá (no cargo), acabam fazendo outra. Aí o povo vai mesmo protestar”, afirma.

“Protesto hoje em dia é normal. Se houver insatisfações, as pessoas vão vir mesmo para a frente da casa do prefeito”, acredita o segurança privado Alexandro Silva dos Santos, de 31 anos, que atua na Rua Turquia.

Motorista de uma das residências do entorno, Jair Martins, de 41 anos, pede que os manifestantes tenham paciência. “Ele ainda nem sentou lá na cadeira (da Prefeitura) e já estão vindo reclamar? Como cobrar de um cara que ainda nem assumiu?”

Alheio a toda essa movimentação, o ambulante Cristiano de Sales, de 22 anos, ganhava a vida oferecendo chocolate entre carros na Rua Itália, na última terça. “O novo prefeito mora aqui em frente?”, indaga, surpreso. “Faz um ano que trabalho aqui e só o vi pela televisão. Mas vou torcer para encontrá-lo, só para pedir para ele cumprir sempre com a palavra.”

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