Vizinhos de Cumbica terão de sair até dezembro do ano que vem

Remoção de 594 famílias do Jardim Novo Portugal para obras no aeroporto é discutida há pelo menos 20 anos

NATALY COSTA, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2011 | 03h03

A vista do Jardim Novo Portugal, bairro na periferia de Guarulhos, é atualmente a de um grande canteiro de obras: o Aeroporto de Cumbica, localizado a menos de 300 metros das casas. De um lado, corre a terraplenagem do futuro terceiro terminal de passageiros. De outro, a reforma das pistas de decolagem e taxiamento.

Discutida há pelo menos 20 anos, a remoção de 594 famílias agora tem prazo para ocorrer: um ano, até dezembro de 2012. É a data-limite negociada entre a prefeitura de Guarulhos e a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero).

Desde a época em que a construção de uma terceira pista para o aeroporto era só uma possibilidade e o terceiro terminal um plano distante, as famílias vivem entre a expectativa e o medo da retirada. Agora que as obras em Cumbica começaram de fato, a iminência de mudanças ronda o dia a dia dos moradores, toma conta da conversa entre vizinhos, vira motivo de especulações. Tudo isso enquanto se assiste à expansão do aeroporto avançando a cada dia na direção das casas.

Perigo. Lá os riscos são grandes, para moradores e para o aeroporto. A falta de saneamento na região, por exemplo, é apontada como principal atrativo de urubus, um perigo na aviação - e ameaça sempre presente em Cumbica.

A área onde fica o bairro já foi declarada de utilidade pública em um decreto da presidente Dilma Rousseff em junho deste ano. O governo federal afirmou que a retirada das famílias deveria ser feita "amigável ou judicialmente". A Infraero diz que a fase agora é de negociação com o Ministério das Cidades, a Caixa Econômica Federal e a prefeitura de Guarulhos para estabelecer a questão do reassentamento das famílias que optarem por receber outro imóvel em vez de indenização.

"Tem de oferecer um lugar para as pessoas morarem. Não é somente indenizar e pronto", diz o prefeito de Guarulhos, Sebastião Almeida (PT).

Vende-se. Na Rua Mamanguape, que termina em um escadão com vista "panorâmica" para as pistas de pouso e decolagem do aeroporto, as inúmeras placas de "vende-se" já mostram uma tentativa dos moradores de deixar para trás o bairro fadado à extinção.

Praticamente todas as casas já estão marcadas com adesivos da Infraero. Santina dos Anjos, de 54 anos, tem dois: um na porta e outro na gaveta, como garantia. A filha Gisele Barcelos, de 27 anos, conta que o vaivém de pessoas pelo bairro se apresentando como oficiais de Justiça e advogados é grande, mas elas nem sempre conseguem saber quem é sério.

"Eles vêm aqui, fazem palestra, falam que estão em nome da Infraero, que a gente vai receber R$ 100 mil de indenização", conta Gisele. Outra vizinha, Eliana Balbino, vê com frequência gente "tirando fotos" e medindo os terrenos.

Oficialmente, a Infraero diz que o montante separado para as indenizações chega a R$ 40 milhões - média de R$ 67 mil para cada família.

A vizinha de Gisele, Solange Rodrigues, chegou a assinar uma procuração dando plenos poderes - e uma comissão de 20% sobre o valor da indenização - para um grupo de advogados. "Quero deixar Guarulhos e mudar para o interior", conta.

Fora o medo de ficar sem casa de um dia para o outro, as moradias precárias e totalmente irregulares no Jardim Novo Portugal fazem os moradores, em sua maioria, aguardar com ansiedade o dia de ir embora dali.

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