Tiago Queiroz/Estadão - 19/05/22
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Vizinha da nova Cracolândia relata: ‘Sitiados pelo pesadelo da cidade’

Psicóloga passou a conviver com o fluxo de usuários que se deslocou pelo centro de São Paulo após operações da polícia.

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2022 | 15h00

A psicóloga Natália Areias, de 41 anos, passou a conviver nas últimas semanas com o fluxo de dependentes químicos da Cracolândia, que se deslocou pela região central de São Paulo após uma operação policial na Praça Princesa Isabel no último dia 11. O grupo aportou na sua esquina, no bairro dos Campos Elísios, alterando significativamente a rotina da vizinhança.

“Aprendemos muito nesses últimos 14 dias, mas à custa de uma angústia que cresce a cada dia, nos adoece e mina nossas esperanças de uma cidade melhor”, relata ela em depoimento escrito sobre a situação. Sucessivas operações policiais transcorreram no local desde então e as queixas dos moradores das proximidades sobre o problema se acumulam. 

A Prefeitura diz prestar assistência aos usuários e a polícia ressalta a investigação sobre a estrutura do tráfico de drogas na Cracolândia. 

Leia a seguir o depoimento escrito por Natália: 

“O fluxo se instalou em nossa porta. Nossa janela que dava para as árvores pau ferro virou um noticiário contínuo. Helicópteros sobrevoam nossa casa, sirenes detonam processos de medo de confronto, vozes entoam palavras que às vezes conseguimos entender, noutras são só um barulho constante de mercado com música nas caixinhas portáteis, batuques e discussões.

 Até o dia 11 de maio, tínhamos nossas portas e janelas abertas para receber amigos, crianças, um bando de jovens artistas, parentes e vizinhos. Tomávamos sol na varanda conversando, tocávamos violão, piano e cantávamos tendo como vista as árvores tão escassas no centro de São Paulo, orgulhosos e agradecidos por termos conseguido construir nosso ninho. 

Nesse dia eu vi a primeira “revoada”, nome emprestado do movimento dos pássaros em bando, mas que designa o movimento de deslocamento do fluxo da então conhecida Cracolândia paulista. Acontecia na Praça Princesa Isabel (aquela que assinou a Lei Áurea), uma operação nomeada Caronte (aquele que transporta para o mundo dos mortos). De lá saíram sem nunca acabar um mundaréu de pessoas que se movem como um corpo e funcionam como uma sociedade paralela, a antiga Boca do Lixo rebatizada de Cracolândia. 

Conduzidos à nossa porta, cá chegaram e cá fixaram novo endereço. Depois de alguns dias tentando entender o que se passava, quão passageira era essa revoada, quanto perigo nós corríamos e com quem podíamos contar nessa experiência, tivemos que fechar nossas portas e janelas. Nada mais de amigos, artistas e parentes. A criança brinca em casa e nos pergunta se estão montando uma casa que não tinha teto, não tinha nada. 

Os vizinhos também estão fechados em casa ou partindo para algum novo abrigo. O barulho, o cheiro e principalmente a visão daquilo que mais tememos enquanto humanos nos abate: o desamparo, a miséria! 

O sono já não vem com facilidade, as saídas e chegadas são acompanhadas por mensagens, telefonemas e hora marcada. Ficamos sitiados pelo pesadelo da cidade. Percebemos imediatamente que antes de nós, os moradores do entorno da praça já estavam há meses sob o peso dessa angústia e antes deles ainda outros que habitam o coração de São Paulo. E no centro desse sintoma que pulsa, os que só existem dentro dessa horda em busca de uma maneira de sobreviver dia após dia. 

Aprendemos muito nesses últimos 14 dias, mas à custa de uma angústia que cresce a cada dia, nos adoece e mina nossas esperanças de uma cidade melhor. O poder público parece não ter uma proposta ou mesmo o desejo de dar a esse fenômeno um outro destino além de viaturas em nossa porta. Apesar de descobrirmos movimentos e organizações em luta, nos parece que essa ferida social não tem cura e ainda que amanhã ou depois eles voem novamente daqui pra lá, as árvores nunca mais serão as mesmas e nós tampouco. Aliás, já falam de cortar as árvores acusadas de darem cobertura ao crime.”

Natália Areias é psicóloga, psicanalista, mestre em Saúde Pública pela USP e moradora dos Campos Elísios  

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