Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Viver na pobreza exaure a capacidade mental

Pessoas pobres têm mais dificuldade em prevenir doenças e tomar remédios regularmente, mesmo quando disponíveis. Também são menos produtivas e têm mais dificuldade em administrar suas finanças, se endividando além de sua capacidade de pagamento. Sempre se acreditou que a causa primária desses comportamentos era a falta de educação. Agora um estudo muito interessante demonstra que o simples esforço mental necessário para lidar com a pobreza reduz a capacidade mental das pessoas.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2013 | 02h02

Para entender como a pobreza afeta a capacidade mental do ser humano, os cientistas estudaram os plantadores de cana de açúcar na Índia. Por lá, o cultivo da cana é muito diferente do que ocorre no Brasil.

Toda a cana é produzida em pequenas propriedades rurais, cada uma do tamanho de alguns quarteirões (um ou dois hectares). Cada propriedade pertence a uma família e é sua única fonte de renda. A família cultiva a cana o ano todo e, em um único dia, determinado pelos usineiro, colhe a cana, entrega na usina e recebe um único pagamento. Esse dinheiro tem de sustentar a família durante os próximos 12 meses, além de financiar toda a atividade agrícola até a próxima colheita.

Essas pessoas vivem um ciclo de riqueza e pobreza todos os anos. Antes da colheita, elas penhoram seus bens, tomam dinheiro emprestado no banco e respondem "sim" quando questionadas se têm dificuldades de pagar as contas no final do mês. Logo após a colheita, elas pagam as penhoras e recuperam seus bens, compram roupas, pagam os bancos e respondem "não" quando questionadas se têm dificuldade de pagar as contas. Esse fenômeno se repete todos os anos por diversas gerações: meses de fartura alternados com meses de penúria. Se nos assalariados esse ciclo é mensal, nesses agricultores ele é anual.

Essa é uma das poucas situações onde uma mesma pessoa alterna regularmente longos períodos de pobreza e riqueza. Todos os outros estudos que comparam pessoas ricas e pobres são obrigados a analisar grupos distintos (de ricos e pobres), que receberam educação diferente e vivem em locais diferentes, o que torna muito complexa a análise dos dados.

Os cientistas testaram 464 chefes de família de 54 vilas em Tamil Nadu, na Índia, algumas semanas antes da colheita e algumas semanas depois de entregarem a cana e terem recebido seu salário anual. Os fazendeiros foram entrevistados em suas casas e submetidos a dois testes capazes de medir a capacidade de processamento mental. O primeiro é semelhante ao utilizado nos testes de QI. São mostradas três formas (por exemplo, um triângulo, um quadrado e um pentágono e se pergunta qual dos objetos completa a série -um retângulo ou um círculo). São dezenas de testes desse tipo (ele é chamado de teste de Raven). No segundo, chamado de teste de Stroop, a pessoa tem de responder rapidamente quantos caracteres aparecem na figura. Por exemplo, a figura mostra 5 5 5 e a resposta correta é 3, mas nosso cérebro tem a tentação de responder 5, induzido pelo número que aparece grafado.

Os resultados demonstram que os agricultores têm uma performance muito pior nos meses que antecedem a colheita (quando pobres), quando comparados aos resultados obtidos nos meses seguintes (quando ricos). Esses resultados também foram comprovados em diversos testes de laboratório feitos nos EUA e sugerem fortemente que a pobreza afeta de maneira reversível e previsível a performance mental dos seres humanos, diminuindo sua capacidade de escolha.

Os cientistas acreditam que essa diminuição se deve a um fenômeno já muito bem estudado em outras situações. Sabemos que o cérebro humano tem uma capacidade finita de se concentrar e focar no momento de tomar decisões. Assim, quando submetido a uma grande quantidade de decisões, ou quando tem de se concentrar para executar uma tarefa, essa capacidade limitada é excedida, e a qualidade do processo mental fica comprometida. Os cientistas acreditam que, nos meses de pobreza constante, a preocupação e a grande quantidade de decisões exaurem o cérebro, afetando a performance desses agricultores nos testes.

Em outras palavras, o simples fato de estar pobre é suficiente para provocar uma sobrecarga mental que prejudica a tomada de decisões. O fenômeno é semelhante ao observado em pessoas que sofrem de dores crônicas ou que falam no celular enquanto estão dirigindo.

Se isso for confirmado, muitos dos comportamentos característicos de populações mais pobres não são unicamente o resultado da falta de educação, mas podem ser explicados pela exaustão cerebral causada diretamente pela pobreza.

É dessa exaustão que as lojas se aproveitam para vender produtos com um custo acima da capacidade de pagamento das pessoas de baixa renda. O comércio deveria estar fechado aos sábados e aberto aos domingos, pois é mais difícil enganar pobres descansados.

MAIS INFORMAÇÕES: POVERTY IMPEDES COGNITIVE FUNCTION. SCIENCE,  VOL. 341 PAG. 976 2013

Mais conteúdo sobre:
Fernando Reinach

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.