Viúva descobriu gravidez na semana do acidente

E até agora seu filho não tem nos documentos o nome do pai porque ele ainda consta como desaparecido do voo 447

Clarissa Thomé / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

Caio Maximus, de 4 meses, não tem na certidão de nascimento o nome do pai. A mãe, Karla Martins dos Santos, também não recebeu o seguro de vida nem a pensão. Tudo porque o mecânico Nelson Marinho Filho, um dos passageiros do voo 447, ainda é considerado desaparecido. A Justiça até agora não expediu o documento que atesta a morte presumida, como é previsto nesse tipo de tragédia. "Esse ano foi de muita dificuldade - emocional e financeira. Perdi meu marido e na mesma semana soube que estava grávida. Tive meu filho sozinha, sem nenhum tipo de suporte, contando apenas com a ajuda da minha mãe", contou Karla, de 37 anos, que vive em Araruama, Região dos Lagos, e evitou falar desde o acidente.

A casa que Nelson construía no terreno dos pais, na zona oeste do Rio, ficou inacabada. O militar reformado Nelson Marinho, o pai, transformou o espaço numa sede improvisada da Associação de Familiares das Vítimas do Voo 447, que reúne parentes de 52 passageiros.

Nelson Marinho Filho tinha 40 anos. Nasceu no Rio e passou a infância em Brasília. Queria ser piloto de avião, foi militar como o pai e fez um curso de refrigeração. Acabou trabalhando em plataforma de petróleo. Especializou-se na Holanda e havia sido contratado por uma empresa italiana. Em 31 de maio, reuniu os amigos para um churrasco. Saiu de casa atrasado para o voo e chorou abraçado com a mãe, dona Eva. "Cuida da Karla para mim."

Marinho apressou o filho - se demorasse mais, acabaria perdendo o voo. Nelson fez questão de se despedir dos amigos um a um e foi o último a embarcar. "Fiquei com esse peso sobre os ombros", diz o pai.

Perda total. Já a morte do maestro Sílvio Barbato provocou uma reviravolta na vida da violinista Antonella Pareschi - dois dias depois do acidente, ela teve de retirar os bens do apartamento de Barbato, ficou com uma dívida de mais de R$ 20 mil e ainda se viu no meio de um processo judicial para comprovar a união estável. "Eu perdi o chão, perdi minha casa, perdi meu companheiro, toda uma estrutura", resume Antonella, de 34 anos, que estava com Barbato havia quatro anos. Ele viajou para fazer uma palestra sobre música russa e brasileira na Ucrânia. Antonella deveria encontrá-lo na semana seguinte, mas foi acordada no dia 1.º de junho pelo telefonema de um amigo. Ligou a televisão e soube do acidente.

"Dois dias depois, recebi o telefonema da filha dele, dizendo que eu deveria tirar minhas coisas do apartamento. Quando cheguei, encontrei minhas roupas e objetos pessoais em sacos e caixas", conta. Antonella contratou o advogado Frederick Burrowes e entrou com uma ação, pleiteando a indenização da Air France. Entre as provas da união estável, apresentou os comprovantes de transferências bancárias para a conta do maestro.

"Eu peguei dois empréstimos bancários a pedido dele, um de R$ 20 mil", conta Antonella, que concluiu o mestrado na Itália com a ajuda de Barbato. "Agora não tenho como pagar as parcelas. Um dos empréstimos tem desconto em folha. Praticamente não vejo meu salário do Teatro Municipal."

Em 28 de abril, parecer do procurador João Antonio Leal Pereira, num recurso que chegou à 4.ª Câmara Cível, reconhece a união estável diante da "farta documentação". Ainda não há decisão judicial. Já os filhos de Barbato, Elisa e Daniel Prates, contestam a versão de Antonella. "Eles não reconhecem em hipótese nenhuma essa união. O pai deles tinha uma relação de namoro com Antonella", afirmou o advogado Álvaro Piquet Carneiro.

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