Vítimas de neonazistas moram na rua

Das quatro pessoas atacadas na zona sul de SP, duas são pardas e duas, brancas; cinco agressores presos não explicaram a ação

Elvis Pereira, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2011 | 00h00

As quatro vítimas dos jovens de classe média presos em São Paulo no fim de semana acusados de integrar um grupo neonazista são moradores de rua. "Só escutei eles falando: "Não gostamos de negro, seus mendigos. Vamos matar você. A gente é skinhead"", afirmou ontem Júlio César Marques Afonso, um dos agredidos. Dois são pardos e os outros dois, brancos.

Marques, de 21 anos, vive com a mulher, Aline Cristine de Souza, de 20 anos, e com mais dois amigos na Praça Rodrigues de Abreu, no Paraíso, na zona sul. "Tínhamos acabado de comer uma feijoada e começamos a tomar vinho. Pouco depois um colega nosso se levantou e viu o pessoal vindo", contou. Os agressores saíram do acesso da Avenida 23 de Maio para a Rua Vergueiro. "Eles vieram correndo, dando soco. Se não fosse a polícia, nos teríamos tomado umas facadas."

O ataque, ressaltou Marques, foi rápido. Ele estava perto de Aline e, com a aproximação do bando, abraçou-a para protegê-la. "Na hora que vi que eles a agrediriam, cobri ela (sic)", disse. Aline está grávida de três meses. "A gente não esperava isso, estava todo mundo quase dormindo", observou a jovem.

Ao proteger a mulher, Marques recebeu um soco nas costas. O amigo dele, o operador Samuel Alexandre de Oliveira, de 34 anos, foi o mais agredido. O orientador socioeducativo Carlos Eduardo Carvalho, de 31 anos, afastava-se do grupo pouco antes do ataque. "Ele estava saindo para buscar um cigarro, mas voltou e correu para chamar a polícia", disse Marques.

Na rua. Acionados, policiais civis da 1.ª Delegacia Seccional, responsável pelo centro, que passavam pelo local pararam e socorreram os moradores de rua. Se a polícia não chegasse, os jovens fariam "besteira", na opinião de Marques. Ele saiu da casa da família, na zona oeste paulistana, há cerca de cinco anos. Aline está na rua há dois anos. O casal afirma que não pretende se mudar da praça depois do ataque. "Não vamos abandonar (o local). Estou disposto a enfrentá-los para acabar com essa maldade. Isso não é certo", disse Marques. Aline chamou os agressores de covardes. "Eles vêm armados e em grupo", contou a jovem.

Estão presos por conta do ataque Guilherme Witiuk Ferreira de Carvalho, de 21 anos, o bombeiro civil Welker de Oliveira Guerreiro, de 19, o estudante Júlio Ramon de Lima, de 21, Pedro de Toledo de Souza, de 19, e Kauê Baldon Barreto, de 18.

O delegado Ricardo Prezia, do 5.º Distrito Policial (Aclimação), afirmou que os cinco presos não justificaram a agressão. "Eles estavam nervosos e não quiseram falar", disse o delegado. Os jovens responderão por tentativa de homicídio, injúria racial e formação de quadrilha.

Antecedentes. Carvalho, conhecido como Chuck, estava em liberdade desde julho do ano passado, quando deixou o Centro de Detenção Provisória Vila Independência, na capital. Cumpria pena por envolvimento no atentado a bomba ocorrido na Parada Gay, em 2009. Segundo o delegado, Lima também tem passagem na polícia: duas por furtos cometidos na zona leste da cidade e em São Caetano do Sul.

A maioria dos presos seria encaminhada ainda ontem para um Centro de Detenção Provisória. Apenas Barreto, por ser filho de policial, deveria permanecer na carceragem do 8.º Distrito Policial, na Mooca.

Procurada, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) não respondeu às perguntas da reportagem sobre o caso.

Parada Gay

Na 13ª edição do evento, em 2009, a explosão de uma bomba caseira feriu mais de 20 pessoas no Largo do Arouche - um dos suspeitos do ataque do fim de semana estava envolvido.

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