Vítimas de incêndio em favela ocupam ruas do Campo Belo

Moradores reclamam que têm dificuldade até para sair da garagem; já desabrigada nega que haja transtornos

CAMILLA HADDAD , MONIQUE ABRANTES , JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2012 | 03h01

Do jardim de sua casa no Campo Belo, zona sul, uma aposentada que mora há mais de 40 anos no bairro observa a Favela Morro do Piolho ser reconstruída. Só que desta vez na calçada da Rua Gutemberg, rente ao muro de uma residência com mais de mil metros quadrados. Na segunda-feira, um incêndio na comunidade, em uma área vizinha, deixou centenas de desabrigados.

"Dá uma olhada. Aqui na calçada tem até geladeira. Eles estão refazendo as casas no meio do bairro", disse uma aposentada, que pediu para não ser identificada. "É um problema social, mas o contribuinte não tem nada com isso. A Prefeitura precisa tomar providências", reclamou.

Ela contou que moradores têm tido dificuldade para sair com o carro das garagens - bloqueadas por madeiras, telhas e móveis. Outro problema, segundo a aposentada, são os cães dos desabrigados que ficam amarrados nas lanças dos portões para não fugir.

"Em poucos dias, eles também conseguiram fazer gatos (ligações clandestinas) com antenas. Temos medo de um novo incêndio. É cheiro de queimado o dia todo", comenta a moradora, que prefere não se identificar, com medo de represália.

Sem solução. Na lateral do prédio de uma publicitária e uma psicóloga, que fica na Rua Sônia Ribeiro, os poucos barracos que já existiam agora duplicaram.

"Agora temos hora para sair, ficamos ilhados", disparou a publicitária. A vizinha psicóloga usa uma roupa mais simples para passear com os cães e evitar abordagens. Ela disse que a vizinhança já fez vários apelos à Prefeitura para que resolvesse a situação, mas não obteve resposta. "Dizem que a área tem projeto para parque, mas qual parque? Cadê o projeto?", perguntou.

A reportagem percorreu ruas como a Xavier Gouveia e vias laterais e flagrou moradores martelando pedaços de madeira para construir barracos. "É lixo por toda calçada, criança pelada correndo, moscas. No meu prédio, que está em frente, eles jogam pedra onde fica a churrasqueira e tem ponto de droga, mas, se falamos qualquer coisa, somos ameaçados", disse outro proprietário, que pediu para não ser identificado.

Os moradores da favela, por sua vez, dizem que não incomodam os vizinhos. Marlene Silva, por exemplo, carregava caixas ontem, na tentativa de construir parte de um barraco. Ela garante não ter mais casa. "Não mexemos com as pessoas do bairro. E, se eu sair daqui, vou ficar sem lugar para o meu barraco."

Futuro. A Favela Sônia Ribeiro deve ser retirada do local, segundo a Prefeitura, para a criação de um parque linear, onde serão construídas 4 mil unidades habitacionais. Grande parte do terreno da favela fica em área municipal.

Segundo a Prefeitura, todas as famílias serão atendidas e receberão moradias perto do terreno onde moravam, como determina a legislação municipal. Mas a Secretaria de Habitação ainda não informou qual o prazo para que isso ocorra.

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