Vítima era deficiente e havia saído mais cedo do trabalho

Marco Antônio dos Santos, de 51 anos, passou mal e pediu para ir ao médico; ele se movia com dificuldades

TIAGO DANTAS, O Estado de S.Paulo

02 Março 2013 | 02h04

O auxiliar de limpeza Marco Antônio dos Santos, de 51 anos, foi identificado ontem como o único morto após o desabamento na Avenida Liberdade. Ele estava passando pela calçada por volta da 18h15, quando a fachada do imóvel caiu. O enterro deve ser hoje às 9h15 no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste.

Santos era deficiente físico e tinha dificuldades de locomoção. Anteontem, ele havia pedido para sair mais cedo do trabalho, em uma empresa de tecnologia da informação em Cerqueira César, na zona oeste, porque não estava se sentindo bem. A uma colega de trabalho, ele disse que passaria em casa e depois iria ao médico. Ele deixou o serviço por volta das 9h45.

A vítima trabalhava na empresa havia três meses. "Chegou a hora dele mesmo. Não tem outra explicação. A gente fica se perguntando o que o seu Marco estava fazendo na Liberdade àquela hora", disse a gerente financeira da empresa, Karina Sanches, de 33 anos. "Cheguei a falar com ele na manhã do acidente. Ele esperou a chefe dele chegar e disse que estava com muita dor."

Em um comunicado interno da empresa, Santos foi descrito como uma pessoa que "estava sempre sorrindo e sendo cordial com todos." "Ele era uma pessoa muito querida, um grande exemplo. Sempre trabalhou muito", afirma a gerente de Recursos Humanos Vanessa Belickas, de 39.

Reconhecimento. O reconhecimento da vítima foi possível graças ao crachá que ele carregava. Além da roupa do corpo e do cartão de identificação, o auxiliar de limpeza levava apenas uma moeda de R$ 0,50 no bolso. Nada mais foi encontrado em meio aos escombros: nem carteira, nem documentos.

O auxiliar de limpeza ainda foi vítima de um furto depois de morto. Funcionários da empresa onde ele trabalhava descobriram que, enquanto o corpo era reconhecido no Instituto Médico Legal (IML), alguém usou o vale-refeição da vítima para fazer um saque de R$ 200.

Como a companhia tinha os documentos de Santos em sua ficha de admissão, Karina e Vanessa foram responsáveis pela identificação e liberação do corpo no IML. "Quando soube que acharam o crachá no local acidente, torci para ele ter passado por ali e deixado o crachá cair. Achei que hoje de manhã a gente o encontraria no trabalho", disse Vanessa.

Nenhum familiar de Santos procurou a polícia ou o IML para comunicar sua falta. Seus pais já morreram e ele não tinha mulher nem filhos. Morava sozinho em um quarto alugado por R$ 300 em uma pensão da Rua Chuí, no Paraíso, na zona sul.

O dormitório fica embaixo de uma escada e não comporta mais do que uma cama. Não é possível nem ficar em pé no local, já que o teto é baixo e na diagonal. Colegas de trabalho de Santos foram ao sobrado ontem procurar pistas de algum parente. Não acharam nada.

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