Visita a morros do Rio começou após Eco-92

Turistas pediam que passeio à Floresta da Tijuca fosse esticado até a Rocinha; depois disso, mercado só cresce

Pedro Dantas / Rio, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

A cena é comum nos sete dias da semana. No alto do Morro Santa Marta, em Botafogo, na zona sul do Rio, os turistas desembarcam de jipes e se embrenham por vielas e becos da favela. Eles tentam entender as fiações embaralhadas, o esgoto a céu aberto e o improviso das construções nas encostas.

"É incrível pensar que as pessoas vivam dessa forma. Essa visita me fez sentir um cara de sorte. Infelizmente, as diferenças sociais são gritantes nesta cidade", avalia, impressionado, o californiano Jason Youdeem, de 21 anos, que veio com um grupo de estudantes da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA). A visita à favela carioca é uma das etapas na viagem de seis semanas dos universitários americanos pela América Latina e apenas mais uma no filão turístico que mais cresce na cidade: o turismo em favelas.

O turismo nas favelas da zona sul carioca começou em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco 92). Sócio da empresa Jeep Tour, Raffael Ricci conta que a ideia veio dos próprios turistas. Eles pediram aos guias que esticassem o passeio ecológico à Floresta da Tijuca até a maior favela da cidade, a Rocinha. "Hoje, o passeio na favela só perde para o Corcovado", diz Ricci.

Marcelo Amstrong, outro pioneiro em passeios em favelas, hoje vive apenas dos roteiros que oferece aos estrangeiros em Vila Canos e na Rocinha, ambas em São Conrado, na zona sul do Rio. "No começo, éramos eu e o telefone. A ideia surgiu quando estive no Senegal e fiquei curioso para conhecer a favela que cercava o hotel. Pensei que no Rio muitas pessoas gostariam de fazer o mesmo", lembra.

A recente pacificação de algumas favelas da zona sul carioca aumentou as opções de passeios para os turistas. "A pedido da Secretaria de Turismo, nós oferecemos o Morro Santa Marta e a procura não para de crescer. Os turistas já sabem até da história da laje Michael Jackson, onde ele gravou o clipe. É sempre mais tranquilo trabalhar em uma favela pacificada", diz Ricci.

A maior empresa do ramo, a Jeep Tour, oferece, a R$ 95, o passeio de três horas em um jipe pela Rocinha e a pé pelo Santa Marta, com paradas em bares e feiras de artesanato ou comidas típicas. Pela internet, guias locais disponibilizam tours de um dia na Rocinha por R$ 60. "O turismo em favela hoje está muito pulverizado, com vários produtos", reconhece o empresário.

Algumas empresas oferecem ao turista visita com direito a baile funk.

Polêmica. Os passeios já renderam críticas e até teses acadêmicas. Alguns dizem que, embarcados em jipes, os estrangeiros passeiam pelas comunidades como se estivessem realizando um safári pela pobreza.

"Isso é falta de informação. Nós conseguimos diminuir o medo das pessoas diante das favelas. O meu maior sonho é que isso fosse mais difundido entre o turista brasileiro, que visita o campo de concentração em Auschwitz, na Polônia, mas não arrisca entrar em uma favela", compara o empresário.

Para a socióloga Bianca Freire-Medeiros, que estuda há anos o turismo nas favelas do Rio, o crescimento desse tipo de passeio depende de uma combinação de fatores.

"Estamos falando de mercado. São necessários atrativos no local, seja a vista panorâmica ou produtos, como souvenirs e comidas típicas", defende a pesquisadora.

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