Violência trocou de lado, diz francês

Para o criminólogo Alain Bauer, a polícia brasileira precisa aprender a lidar com atos violentos praticados por manifestantes

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h12

As cenas de violência policial e quebra-quebras sem controle vistas em São Paulo e no Rio desde o início dos protestos, em junho, são prova da obsolescência das forças de ordem para lidar com multidões. A análise é do maior criminólogo da França, Alain Bauer, ex-consultor de segurança do Palácio do Eliseu. Para o expert, a agressividade de certos grupos é sinal de que a violência começa a trocar de lado - e a polícia precisa se adaptar para controlá-la sem deixar rastro de vítimas.

A violência dos protestos no Brasil é acompanhada com atenção por sociólogos e especialistas europeus em segurança pública. Bauer é um dos que demonstram conhecimento sobre o que se passa nas grandes capitais brasileiras desde junho, quando o Movimento Passe Livre (MPL) levou milhares de brasileiros às ruas em defesa da tarifa zero nos ônibus.

Para o criminólogo, o excesso de violência da polícia brasileira e a ação organizada de grupos radicais, como o Black Bloc, mostram que os dois lados estão fora de controle.

De acordo com Bauer, cada país desenvolve ao longo dos anos sua própria forma de controlar multidões - o que ele chama de "cultura da manutenção da ordem pública". Na França, por exemplo, as manifestações em geral são mais brutais e violentas do que na Alemanha e na Inglaterra ou até mesmo do que em países latinos como Portugal e Espanha.

Até por isso, a polícia francesa foi obrigada a desenvolver meios de evitar que protestos - tão comuns nas ruas do país - se transformem em praças de guerra. Para tanto, o Ministério do Interior investe em serviços de inteligência, que realizam infiltrações e espionagem de grupos radicais.

Em paralelo, tropas de choque são treinadas para resistir a confrontos e intervir para prender e dissipar manifestantes sem deixar vítimas. "Quem tem o melhor serviço de controle de ordem na Europa é a França, onde há muito mais manifestações, muitas delas violentas, e que são controladas com eficiência", avalia Bauer.

Na filosofia da polícia francesa - que também enfrenta os excessos, como os protagonizados por torcedores do PSG em maio, junto à Torre Eiffel, em Paris -, o patrimônio importa menos do que vidas humanas. Por isso, automóveis são com muita frequência alvo da ira dos manifestantes, que os incendeiam.

Embora em segundo plano, o patrimônio precisa ser resguardado sempre que possível.

Fim de ciclo. Para Bauer, a violência que agora toma ruas de cidades como São Paulo e Rio é indício de que o País se aproxima do fim de um ciclo na segurança pública. No passado, protestos eram reprimidos com violência policial. Hoje, a violência parte de grupos de manifestantes.

"A polícia enfrentava as multidões para impor sua autoridade. Agora são grupos que enfrentam a polícia para manifestar sua insubordinação. É o fim de um ciclo", explica.

Virada. A virada na lógica aconteceu, segundo Bauer, quando dos protestos antiglobalização de Seattle, nos Estados Unidos, em 1999.

"Os americanos não souberam gerenciar a situação porque não tinham a cultura da manutenção da ordem. Isso é prova de que mesmo em países maduros pode-se ser surpreendido quando não se conhece o público que manifesta", adverte o criminólogo. "Por isso é preciso que as forças de ordem se adaptem em permanência."

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