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Violência, amor e sexo

A semana que passou foi violenta. Várias notícias mostraram crimes graves cometidos por jovens. Em comum, muitos dos envolvidos alegaram motivações na esfera do campo amoroso ou sexual para praticar suas ações.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h11

Em São Carlos, um estudante de 22 anos do curso de Engenharia da USP deu tiros em um alojamento da universidade e feriu colegas. Ele disse, em entrevista ao Estado, que estava sendo alvo de difamação nas redes sociais e que teria sido vítima de violência sexual em seu trote, no início do ano, quando veteranos teriam exigido que ele praticasse sexo oral neles.

Em Aparecida de Goiânia (Goiás), foi preso nesta semana um jovem de 18 anos acusado de matar quatro adolescentes (dois garotos e duas meninas) no mês passado. Ele teria sido auxiliado por um amigo de 19 anos e por um menor. O jovem (que já tinha passagens pela polícia) teria ficado com ciúmes de postagens que um dos garotos assassinados fez no perfil da sua namorada no Facebook. A namorada foi poupada no massacre, mas teria sido coagida a permanecer "escondida" na casa da tia do rapaz.

No terceiro caso, um jovem de 18 anos (com a ajuda de dois menores), no Rio, teria tentado asfixiar e enterrar vivo um morador de rua na Praia de Ipanema por ele ter, supostamente, cometido violência sexual, meses antes, contra a irmã do acusado.

Até a noite de sexta-feira, não estava claro até que ponto seriam verdadeiras as alegações dos suspeitos para terem praticado os crimes. De qualquer forma, além do fato óbvio de que essas alegações não justificam os atos praticados, elas suscitam reflexões.

No caso de São Carlos, se é que violência sexual de fato ocorreu no trote, será que esse episódio poderia fazer com que o estudante, tempos depois, tentasse se vingar, também de forma violenta? Em teoria, sim. Muitos dos abusadores sexuais relatam que eles próprios foram vítimas de violência sexual na infância ou na adolescência. Assim, suas ações seriam uma espécie de "acerto de contas" com o passado. Mas, em geral, o que se vê entre as vítimas é vergonha e medo. Comportamentos depressivos, dificuldades de adaptação social e outros transtornos psiquiátricos também parecem ser mais comuns em vítimas de violência sexual. Alguns desses quadros poderiam também, em teoria, aumentar o risco de comportamentos agressivos contra a própria pessoa (autoagressividade) e, ainda, contra os outros (heteroagressividade).

No crime de Goiás, além do suposto ciúme, que poderia levar uma pessoa mais impulsiva a praticar alguns atos desproporcionais, parece haver um histórico de outras ocorrências policias, inclusive homicídio, que pesam contra os acusados.

No Rio, se a história contada pelos suspeitos é real, eles estariam agindo para vingar uma irmã abusada sexualmente. Mas, pelo histórico recente de ataques a moradores de rua e pela inconsistência dos depoimentos dos menores envolvidos, a alegação dos jovens foi recebida com desconfiança pela polícia, que trabalha com a hipótese de violência gratuita.

Lógico que a violência sexual ou uma desilusão amorosa (junto com ciúmes) pode causar raiva e desejo de vingança. Muitas dessas emoções podem até desaguar em crimes violentos. Mas não se pode esquecer o fato de que muitas dessas alegações podem ser inverídicas, sendo usadas apenas como uma forma de justificar ou atenuar as razões dos delitos.

Uma boa investigação policial e uma avaliação psiquiátrica são importantes para se certificar de que a suposta violência sexual não é apenas fruto de um delírio persecutório (uma criação da cabeça), que pode ser sintoma de uma série de patologias mentais. O fato de os crimes terem acontecido tempos depois das supostas agressões sexuais e de exigirem certo grau de planejamento (não uma reação aguda) pode dar pistas para a polícia separar o que é real e o que está sendo criado pelos supostos autores, quer seja por intenção ou por delírio.  * É PSIQUIATRA

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