Vinicius nas Gerais

Pouco antes de ser escorraçado do Itamaraty pela ditadura militar, no final dos anos 1960, Vinicius de Moraes esteve por um tempo à disposição do governo de Minas, para ajudar na organização de festivais de arte em Ouro Preto - e, como protagonista ou como coadjuvante, deixou nas montanhas um rastro de historinhas.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2011 | 00h00

Havia sempre uma escala em Belo Horizonte, e nessas ocasiões, mal botava o pé na cidade, o poeta requisitava, nesta ordem, umas cervejas e a presença de um jovem violonista que foi para ele, como companhia & acompanhante, uma espécie de precursor do Toquinho. O rapaz era de boa família e o pai dele, oftalmologista ilustre, não viu com bons olhos aquela camaradagem etílico-musical. Certo domingo, amanheceu na varanda para tocaiar o filho - que, envolto num halo de bebida e cigarro, chegou com sol alto, sobraçando o violão. Ao ver o rosto enfarruscado do velho, o moço pingou um oi antes de se enfurnar na sua toca. Nem bem se despira quando entrou a carranca paterna:

- Você gosta de violão, não gosta?

- Si-im - tartamudeou o filho.

- Você gosta de tomar cerveja, não gosta?

- Si-im...

- Você gosta da boemia, não gosta? - volveu o pai, dois tons acima.

- Si-im - assentiu o outro com o que lhe restava de voz.

- Pois então pegue o seu violão - bramiu o doutor, dedo trêmulo apontando a porta - e vá... e vá... para... os seus Vinicius de Moraes!

*

Como ele não aparecesse para o bate-papo na faculdade e o auditório já se impacientasse, concluímos que o jeito era ir buscá-lo. Vinicius de Moraes - a nossos olhos juvenis pouco menos que um macróbio, em seus 52 anos de idade - estava hospedado em casa de amigos, num distante subúrbio de grã-finos, e para lá tocamos no Ford Fairlane que o pai de um colega, dada a relevância da missão, concordara em franquear ao filho. Tivemos de esperar que o poeta fosse despertado e, sem nenhuma pressa, se preparasse. Sonolento, aboletou-se no centro do banco de trás e viajou quilômetros sem dizer palavra, as mãos cravadas no encosto do banco da frente. Quando abriu a boca foi para pedir uma paradinha em algum lugarzinho onde houvesse uma cervejinha. Num bar de beira de estrada, pachorrentamente, Vinicius mamou uma, duas, três cervejinhas, e fez a felicidade do garçom, que, ao ver o retrato na contracapa do meu exemplar da Antologia Poética, por pouco não deixou a bandeja cair:

- O senhor é ele?!

Achou até bonitinho. Dureza mesmo deve ter sido ouvir o "achado" com que o presidente do centro acadêmico o recebeu no auditório da faculdade:

- Vinicius, por que demorais?

*

Num intervalo entre duas de suas nove mulheres, Vinicius de Moraes vivia em Ouro Preto uma crepitante e um tanto escancarada lua de mel. O problema é que, além de abusar da regra três, ele ainda não fechara a fatura do casamento anterior, e as murmurações rapidamente viajaram até o Rio de Janeiro, indo bater nos ouvidos da esposa que, sem o saber, estava prestes a ganhar passe livre. A qual, injuriada, não teve dúvida: mandou-se para Ouro Preto, onde chegou de surpresa, decidida a irromper, ah, sim!, ele vai ver! no cenário do adultério. E assim teria sido, se uma boa (ou má) alma, vendo entrar na cidade o Fusca da esposa traída, não tivesse corrido para prevenir o traidor. Este, talvez com sólido know how em situações do tipo, tratou de limpar a cena do crime, o que consistiu em despachar a namorada e seus pertences para outro quarto do hotel. Estava até tranquilo quando a mulher, direto ao trinco, fez estrepitosa entrada no apartamento, que se pôs a escarafunchar com rosnados de cão raivoso. Nada no quarto. Nada no banheiro. O marido já considerava a tempestade por afastada quando o olhar perquiridor da consorte deu com a camisa polo no encosto da cadeira.

- É minha! - apressou-se o poeta em esclarecer, sem que nada lhe houvesse sido perguntado, e por enervantes minutos bufou na tentativa de se empacotar numa Lacoste fúcsia vários números abaixo do seu.

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