Vila Zelina quer ser bairro temático do Leste Europeu

Em diferentes épocas, búlgaros, croatas, eslovenos, húngaros, letos, russos e poloneses, entre outras nacionalidades, já se fixaram ali

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h02

Do leste do Velho Mundo ao leste da capital paulista. Com seus 15 mil habitantes, a Vila Zelina é um pedaço do Leste Europeu na zona leste paulistana. E agora seus moradores querem ver o bairro reconhecido oficialmente como tal, assim como a Liberdade é dos japoneses e o Bexiga, dos italianos.

Em diferentes levas migratórias, o bairro recebeu, principalmente na primeira metade do século 20, colônias de búlgaros, croatas, eslovenos, estonianos, letos, húngaros, lituanos, poloneses, russos, checos e ucranianos. Onze povos que, na Europa, nem sempre se entendem bem. Aqui em São Paulo, encontraram harmonia.

A história do bairro começou ainda no século 19, quando a região, próxima da Vila Prudente, era chamada de Baixos do Embaúba. Vila Zelina mesmo, com esse nome, só passou a existir no papel em 27 de outubro de 1927, quando foram feitos os primeiros loteamentos.

Traços dessas culturas estão presentes no cotidiano da vila. Pão preto, sardinha curtida e repolho azedo são alguns itens que podem ser encontrados facilmente nos empórios, principalmente nos arredores da Praça República Lituana.

Ali fica a Paróquia São José de Vila Zelina, igreja católica que mantém a tradição de, aos domingos, ter uma missa em lituano. Atrás dela, uma escola ensina o idioma aos mais jovens. O bairro ainda tem igreja com missa em ucraniano e a Paróquia da Santíssima Trindade, da Igreja Ortodoxa Russa, com celebrações em eslavo antigo.

Para que o bairro se torne verdadeiramente um local temático do Leste Europeu, dirigentes da Associação de Moradores e Comerciantes do Bairro da Vila Zelina (Amoviza) pretendem implementar uma série de melhorias. A começar pela revitalização da pracinha central, a Praça da República Lituana.

"Teremos cabines de orelhão em forma de matrioshka, aquela boneca russa, e em forma de ovos pintados, entre outras mudanças", adianta o engenheiro Victor Gers Junior, presidente da Amoviza. Já levantamos patrocínios com empresários da região e devemos iniciar essas obras, ao custo de R$ 15 mil, em setembro.

Bulevar. A próxima etapa será transformar a pequena Rua Monsenhor Pio Ragazinskas em bulevar. É nessa rua que já ocorre, mais ou menos a cada dois meses, uma feira de artesanato e culinária típica - a próxima está marcada para 30 de setembro.

Pelo projeto, os imóveis devem ganhar elementos arquitetônicos remetendo ao Leste Europeu, a fiação será aterrada e as calçadas serão ampliadas. A estimativa é de que seja necessário R$ 1 milhão. "Vamos conseguir essa verba com a iniciativa privada e esperamos começar a obra ainda em 2013" , planeja Gers. Um croqui já foi apresentado à Subprefeitura da Vila Prudente, que, por meio da Assessoria de Imprensa, diz que "louva tais iniciativas".

É nessa rua que fica a rotisserie Delícias Mil, de Alana Trinkunas Dzigan, de 67 anos, filha de lituanos. Ali há pratos como o virtiniai (semelhante ao ravióli), kúgelis (torta de batata) e kopustas (repolho azedo), entre outros. "Aprendi as receitas com meus pais. São de família", conta.

A identidade do bairro vem sendo resgatada até por quem não tem nada a ver com essa origem. "Já fizemos pratos típicos em ocasiões especiais e pretendemos, em breve, ter a culinária do Leste de modo fixo em nosso cardápio", diz a proprietária do restaurante Quarena, Ana Lúcia Iervolino.

A Lanchonete Santa Coxinha já aderiu. "Estamos aqui no bairro há pouco mais de um ano. E fomos tão bem aceitos que decidimos homenagear a população", comenta o proprietário Fernando Miranda Junior. No cardápio da casa faz sucesso a "coxinha Zelina", salgadinho recheado com carne temperada com molho e pepino, em um paladar típico da culinária do Leste Europeu.

Já o Bar do Vito, com cervejas e pratos lituanos, existe desde 1942.

De bonecas a viagens. As curiosidades da Vila Zelina não param por aí. No bairro é possível encontrar para vender matrioshkas - bonecas importadas da Rússia - e até uma agência de viagens especializada em Leste Europeu, cuja proprietária, Tamara Dimitrov, de 50 anos, também preside a Associação Cultural Grupo Volga de Folclore Russo, que existe há 31 anos, tem 47 participantes e realiza mais de 40 apresentações por ano em todo o Brasil.

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