Vila Mariana, o distrito mais completo da capital

Região que começou a se desenvolver no século 19 aparece no topo do ranking dos 457 anos de SP

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2011 | 23h00

A Vila Mariana é tão querida pelos moradores que alguns criaram ali até uma ‘república’, com bandeira e brasão

 

Seu Amílton Araújo é um homem de gestos lentos e sorriso acanhado, um senhor de 82 anos que parece calcular com precisão matemática todas as suas palavras e ações para não sair por aí gastando energia à toa. Seu relógio possui um tempo um tanto particular, muito diferente das pessoas e dos carros que passam apressados em sua volta. "Jovem, minha cabeça já nem funciona mais direito... é a idade.... o que você queria saber mesmo?", pergunta o comerciante, com sua prosa ainda mais vagarosa e miúda do que seus passos, sentado atrás do balcão de sua mercearia, que há 35 anos ocupa o mesmo número da Rua Vergueiro.

 

Os olhos de seu Amílton subitamente se iluminam, no entanto, quando ele começa a falar de seu bairro, a Vila Mariana, sua história, suas raízes. Aí, neste estranho instante, justamente quando ele conta causos fantásticos sobre carros de boi, homens de terno e bigodes farfalhudos, bondes e futebol no meio da rua, os buracos da memória simplesmente desaparecem. E o antes cansado seu Amílton vira uma criança.

 

"Meu avô tinha uma armazém de secos e molhados aqui na Vila Mariana. Ele me contava que era tudo um grande vazio, tinha poucas casas e ainda passava carro de boi na Vergueiro. No mesmo caminho depois passaram os bondes, abriram a avenida, veio o metrô. Tudo pelo mesmo percurso. Eu acho tão bonita essa história... É o desenvolvimento de São Paulo, né? Uma mistura de herança e modernidade, passado e futuro."

 

Pelas ruas da Vila Mariana, distrito entre o centro e o sul da capital com 60 km² e 112 mil habitantes, é justamente essa dicotomia que causa tanta paixão nos moradores. É a Vila Mariana do armazém de seu Amílton e do Shopping Metrô Santa Cruz, da Cinemateca Brasileira e dos multiplexes, do Parque do Ibirapuera e dos prédios neoclássicos, da padaria do Pedro Castelo que vende há três décadas uma deliciosa canjica com costela de porco e dos bares cheios de estudantes da Rua Joaquim Távora, da inocência interiorana ao redor da caixa d’água e do trânsito perto da Avenida 23 de Maio, das faculdades e da colheita de café que ainda ocorre anualmente no jardim do Instituto Biológico.

 

Com essa tapeçaria urbana tão própria, a região da Vila Mariana ocupa o posto de mais completa de São Paulo no ranking do Estado - é o distrito com mais faculdades e colégios particulares, com os menores índices de criminalidade e tem ainda bastante área verde. Também conta com um grande número de bares, restaurantes, baladas, empresas, cinemas e museus. Há ali 2 parques, 5 estações de metrô (Ana Rosa, Vila Mariana, Paraíso, Santa Cruz e Chácara Klabin), 6,1 mil estabelecimentos comerciais, 1.572 lojas, 61 mil empregos no comércio e no setor de serviços, 52 igrejas ou templos, 15 hospitais, 5 postos de saúde, 9 museus ou centros culturais, 26 creches públicas ou particulares, 45 mil residências particulares, mais de 95 centros educacionais e um dos maiores índices de desenvolvimento da capital. Ainda assim, o preço do m² de um lançamento lá fica em torno de R$ 7 mil, valor mais baixo que de outros bairros das redondezas, como Jardim Paulista, Pinheiros e Itaim-Bibi.

 

História. Em seu perímetro, a Vila Mariana abrange as Vilas Afonso Celso e Clementino, o Paraíso e os Jardins da Glória e Vila Mariana. O desenvolvimento de toda essa região foi incentivado pela construção da estrada de ferro da Companhia Carris de Santo Amaro, então município independente. A área, conhecida como Cruz das Almas - por causa da presença de duas cruzes, lembrando viajantes mortos na beira da estrada -, servia até então apenas como caminho para a Serra do Mar. Em 1886, quando se inaugurou o ramal da ferrovia de trens a vapor, ligando São Paulo a Santo Amaro, a antiga área rural passou a ser conhecida como Meio Caminho de Carro.

 

Com a estrada de ferro, o bairro habitado por italianos e alemães integrou-se ao "cinturão verde" de São Paulo. Produzia hortaliças, legumes, verduras e flores. Ali também foi instalado o Matadouro Municipal, hoje sede da Cinemateca, onde era morto o gado que alimentava a população paulistana.

 

O nome Vila Mariana deve-se, provavelmente, ao vereador e administrador do Cemitério da Consolação, Carlos Eduardo de Paula Petit, que chegou ao bairro em 1885. Rico e influente para os padrões da época, ele batizou a vila em homenagem à mulher, Maria, e à mãe, Ana. O nome foi reconhecido pela Câmara em 1907. Nesse período, formou-se também a Rua Vergueiro, que homenageia o proprietário do período imperial Nicolau Vergueiro.

 

Ministérios. A paixão de alguns moradores por essa história da região é tamanha que, há 10 anos, um grupo de amigos proclamou a "República da Vila Mariana" e hasteou a bandeira do território no Instituto Biológico - um prédio extremamente simbólico para o bairro, que serviu como cenário para a filmagem do primeiro longa-metragem colorido feito no Brasil, Destino em Apuros, de 1953, e de reuniões da Revolução Constitucionalista de 1932. Como todo governo que se preze, a República da Vila Mariana tem um ministério e, à frente dele, um chanceler.

 

"Criamos isso para proteger a memória da região, que é riquíssima", diz Walter Taverna, o chanceler, vilamarianista há mais de 50 anos. Até bandeira própria eles têm, com as cores amarela e vermelha e desenhos do Obelisco, de árvores e de um trem do metrô. "Temos ministros da Justiça, das Artes, do Trabalho, da Saúde, do Comércio... Queremos divulgar tudo o que a Vila Mariana tem de bom e ajudar a população na interlocução com a Prefeitura. A Vila Mariana é tão única para São Paulo que precisava ser uma república."

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