Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

25 Março 2017 | 17h10

SÃO PAULO - Organizados em grupos, estrangeiros param para admirar os grafites e fazer uma foto com o celular. Ao piano, violino e instrumentos de sopro, maestros renomados e artistas em ascensão se apresentam em uma garagem, a poucos metros de distância. As crianças também estão lá: pulam corda e jogam bola. Tudo acontece no meio da rua. E sempre aos domingos: dia em que um pedaço da Vila Madalena, na zona oeste, se transforma em um parque sem grades nem portão de entrada.

“Não adianta procurar em listas oficiais de atrativos de São Paulo porque o 'Parque da Vila Madalena', como é chamado por idealizadores, não vai estar lá. “É um espaço virtual, onde há um conjunto de empreendimentos que reúne cultura, lazer, entretenimento”, explica o professor Dirceu Dias, morador da região há 35 anos. “São pessoas interessadas em se apropriar do espaço urbano.”

O “parque” está distribuído por um triângulo de 60 mil m², ladeado pelas Ruas Medeiros de Albuquerque, Harmonia e Aspicuelta. Há feiras gastronômicas, brincadeiras e shows gratuitos, organizados por espaços de economia criativa sob liderança do Armazém da Cidade. Os eventos ganharam força há cerca de um ano, quando um trecho da Medeiros de Albuquerque foi incluído pela gestão Fernando Haddad (PT) no programa Ruas Abertas. Desde então, o projeto também enfrentou resistência de moradores e passou por alguns ajustes.

No coração do Parque da Vila Madalena está o Beco do Batman, reduto do grafite em São Paulo. “É como se estivéssemos em um museu a céu aberto: simplesmente fantástico”, diz o norte-americano Larry Ehrlich, de 51 anos, um dos turistas.

Muitas pessoas também aproveitam para transformar o Beco em um “estúdio ao ar livre”. A estudante Júlia Piacentti, por exemplo, chegou com três amigas de limusine para fazer as fotos em comemoração ao aniversário de 15 anos. “Eu acho muito bonito, bem colorido, alegre. Gosto bastante daqui.”

Tour. É possível fazer tours guiados pelos próprios grafiteiros em ações de espaços e coletivos culturais, como a Ocuparte e a Alma da Rua. Para atender ao público estrangeiro, a excursão da SP Free Walking Tour é feita em inglês e o turista paga o quanto “acha que vale”. Segundo Rafael Baracat, responsável pela empresa, o passeio da Vila Madalena já atrai mais pessoas do que a Avenida Paulista. “O Beco do Batman e o Armazém da Cidade formam um corredor de arte e lazer”, diz. “Os turistas percebem a energia diferente.”

À frente do grupo, a guia turística usa um microfone preso na orelha para falar com 33 participantes do tour. Entre eles, há só dois brasileiros. “Estão vendo este desenho, galera?”, aponta no muro a imagem de uma boca com uma língua imensa para fora. “Foi o Ron Wood, guitarrista do Rolling Stones, quem pintou.” É a deixa para que façam uma selfie atrás da outra.

“Nunca vi tanto artista junto em nenhum lugar do mundo”, diz o irlandês Richard Fenning, de 31 anos, participante do tour. “Há muita imaginação nas pinturas, eu adorei. Não temos isso no Irã”, concorda Azadeh Mohammadi, de 36 anos.

O fluxo de estrangeiros cresceu após a Copa do Mundo, quando a Vila Madalena invadiu o noticiário internacional. “Virou um point mesmo: 85% do meu público é de fora”, diz Marina Moretti, proprietária do hostel Ô de Casa. Além das atrações no entorno, o fechamento do Beco para carros e a instalação de lâmpadas de LED, no ano passado, aumentaram ainda mais a movimentação. “Agora, os visitantes resolvem ficar mais tempo na cidade para assistir a um show”, conta.

Concerto. Cadeiras de praia e guarda-sóis substituem os carros na Medeiros de Albuquerque aos domingos. Ficam na frente da galeria Choque Cultural, à espera das apresentações de música clássica, jazz e MPB. “Está todo mundo misturado. Você não se sente um artista, você faz parte do público”, diz o maestro João Carlos Martins, que apadrinhou o projeto Concerto na Garagem e fez um show de graça no início do mês. “É como se fosse um país imaginário: cerca de 800, mil pessoas sentadas na rua, ouvindo Bach, Mozart, Beethoven.”

Outro projeto, aos domingos de manhã, é o Jogadeira, da ex-jogadora de vôlei Ana Moser. Crianças se divertem no asfalto, supervisionadas por recreadores. “Na Europa, é muito comum ter iniciativas na rua”, diz o alemão Joahannes Fischer, de 34 anos, que levou a filha Valentina, de 3 anos, para brincar. “São Paulo precisa de mais espaços assim.”

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Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 16h11

SÃO PAULO - As atividades do "Parque Vila Madalena" têm atraído empreendimentos descolados para a região. Desde o início do projeto, já houve inauguração de galeria de arte de rua, feira de comida na calçada, brechó, bar e até coworking (ambiente compartilhado de trabalho). Outros negócios também estão prestes a abrir as portas.

Um deles é um restaurante na Medeiros de Albuquerque, em que os produtos serão adquiridos diretamente dos produtores. “A cozinha vai ser aberta, a ideia é ser um pouco informal”, afirma o chef Cesar Costa, de 25 anos. A inauguração esá prevista para a segunda semana de maio. “A gente quer aproximar o cozinheiro do comensal e propor uma reflexão da origem da comida”, diz.

Segundo Costa, o motivo que levou ele e o sócio, o administrador Luiz Guilherme Simões, de 27 anos, a investir na região foi o público mobilizado pelo “Parque” que frequenta a Vila Madalena. “Nos interessa a diversidade das pessoas. Há famílias, jovens de cabeça aberta. E o nosso restaurante é mais ‘cabeça aberta’”, diz. “Quem vai ditar o ritmo do menu são os produtos da época”, afirma o chef.

O empreendedor social Mateus Mendonça já abriu na região um coworking, com um estúdio e galeria de fotos, onde também funciona uma consultoria de gestão de projeto socioambiental. Em maio, ele vai inaugurar outra unidade, mas com um “café sustentável” que também manterá uma exposição de grafites.

“Queremos promover convivência com quem passa pelo Beco e ter um espaço público para refletir sobre a arte exposta lá”, afirma Mendonça. “Vamos construir uma interação com visitantes e resgatar o senso de comunidade.” Para Mendonça, é importante incluir moradores da região no projeto. “Há um cuidado para que não seja um processo de gentrificação”, diz. “Estamos resgatando a história das pessoas e do lugar.”

 

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Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 16h06

SÃO PAULO - O “Parque da Vila Madalena” não é unanimidade na região. Incomodados com os decibéis a mais que as atividades representam e com as restrições de trânsito, moradores do bairro já fizeram diversas reclamações e até um abaixo-assinado contra o projeto – o que motivou recentemente uma reunião de conciliação entre as partes, promovida pela Prefeitura, além de mudanças nos eventos. No fogo cruzado entre apoiadores e opositores, a gestão João Doria (PSDB) diz que o atual modelo está em “fase de verificação”.

No início do projeto, os eventos eram realizados todos os sábados, domingos e feriados. Os shows também ocorriam em um palco montado na rua – e não em um espaço restrito, como na garagem da galeria.

No fim de fevereiro, o prefeito regional de Pinheiros, Paulo Mathias, fez uma reunião entre os interessados. Nela, decidiu-se restringir os eventos realizados na Rua Medeiros de Albuquerque apenas aos domingos. 

Moradores da Vila Madalena haviam coletado 317 assinaturas denunciando, entre outros itens, o barulho e a “inadequação de mobilidade” provocados pela programação, principalmente do Armazém da Cidade, o principal organizador do “parque”.

Responsável pelo espaço, o jornalista Gilberto Dimenstein também incentivou o público a produzir uma petição online e conseguiu mais de 2 mil assinaturas a favor do projeto.

Para Baixo Ribeiro, criador da galeria Choque Cultural, o problema do barulho “não é insolúvel”. “Com concertos na garagem, temos música de qualidade e com baixíssimos decibéis”, diz. “Antes, o palco ficava na rua, os gêneros musicais variavam, e tinha amplificação.”

A mudança, porém, é considerada recente pela Prefeitura. “Não somos contra o projeto cultural, somos contra excessos de ambas as partes”, diz Paulo Mathias, prefeito regional de Pinheiros. Para ele, a ocupação do espaço deveria ter sido feita “de forma mais ordenada”, a fim de evitar os problemas.

“Ainda não sabemos se o acordo está surtindo efeito, até por conta do pouco tempo que houve para avaliar. Está em fase de verificação”, diz Mathias. Segundo ele, a administração também não descarta mudanças.

Mesmo com a apresentação “mais comportada”, moradores voltaram a usar as redes sociais para reclamar do barulho, após apresentação do maestro João Carlos Martins. “O que fizeram com os moradores é uma perversão tamanha que causa espanto em qualquer pessoa. O direito de descansar e de ir e vir aos fins de semana foram destituídos”, publicou o técnico em informática Flamaryon Wellington Miguez, no Facebook.

Para atenuar os problemas, a Sociedade Amigos de Vila Madalena (Savima) quer revezamento entre as ruas da prefeitura regional. Segundo o presidente da entidade, Cassio Calazans, a proposta será feita à gestão Doria. “Pinheiros tem uma área grande, não precisa ser sempre na Medeiros de Albuquerque”, diz Calazans, que cita o Largo da Batata como uma das opções. “Além de diminuir o impacto, levaria atividades a outras áreas do bairro.”

Revitalização. A Prefeitura prepara um projeto de acessibilidade para o Beco do Batman, a ser implantado a partir de abril. Segundo Mathias, a proposta é construir rampas de acesso, além de aumentar a fiscalização de estabelecimentos no entorno. O município também iniciou a troca de lixeiras antigas por estruturas maiores. 

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