Vila inglesa histórica é cenário de abandono

Em Paranapiacaba, museu ferroviário fechou em janeiro e ruas estão vazias

Fábio Mazzitelli, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

Enquanto abre as portas dos galpões do museu fechado por falta de luz, Thomas Otavio Corrêa, de 27 anos, conta em detalhes a história de Paranapiacaba, vila criada pelos ingleses da São Paulo Railway nos anos 1860, no alto da Serra do Mar. Lembra de locomotivas a vapor, d. Pedro II, Barão de Mauá... Mas, quando o assunto chega ao presente, a empolgação vai embora.

Voluntário da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), Corrêa faz coro às lamentações dos cerca de 1.300 moradores do vilarejo: Paranapiacaba ainda patina como vila turística e tem muitas dificuldades em zelar pelos bens tombados pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico - o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat), órgão paulista, oficializou o tombamento em 1987 e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), federal, em 2002.

O museu mantido pela ABPF no entorno do antigo leito da linha férrea está fechado desde janeiro porque falta energia elétrica. Um transformador queimou e não foi trocado. A prefeitura de Santo André, que administra Paranapiacaba, prometeu substitui-lo, mas não deu prazo para finalizar a compra.

Entre a memória guardada no museu estão locomotivas a vapor, vagões de madeira usados por d. Pedro II e todo o maquinário do funicular, sistema de tração que até 1974 locomovia os trens pela serra com cabos de aço. "Para fazer a manutenção adequada, precisamos de energia. Sem ela, achamos melhor fechar", conta Thomas Côrrea. "A prefeitura chega a falar daqui como outra Campos do Jordão, mas está muito longe disso."

À margem da linha férrea, as dezenas de casas de madeira do século 19, de estilo vitoriano e que dão forma à "vila inglesa", são alugadas pelo município a quem deseja morar ou investir na vila. Mas parte desses imóveis, destinados para fim comercial ou residencial, está fechada ou foi desocupada recentemente por despejo - casas vazias são alvo constante de invasores, que as ocupam e esperam por acordo com a prefeitura.

Desde junho do ano passado, a administração municipal não renova os contratos de locação, o que dá à prefeitura o direito de pedir a casa de volta a qualquer hora. Nos últimos anos, apostando no turismo, alguns locatários dos imóveis tombados passaram a pagar aluguéis dez vezes mais altos do que os antigos, entre R$ 500 e R$ 600. Mas até esse grupo reclama mais investimento. "O único caminho é criar um órgão gestor com os governos municipal, estadual e federal", diz o diretor de cartório aposentado Rogério Toledo Arruda, de 64 anos, desde 2007 em Paranapiacaba.

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