Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Vigilância vistoria sítio após 14 mortes; doentes são isolados

Espaço mantido pela Missão Belém estabeleceu ‘quarentena’ depois de surto de diarreia; amostras ainda estão em análise

Fabiana Cambricoli e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

20 Julho 2017 | 03h00

SÃO PAULO - As Vigilâncias Sanitárias do município de Jarinu e da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo realizaram na manhã desta quarta-feira, 19, uma vistoria nos sítios da Missão Belém, no interior de São Paulo. A fiscalização aconteceu após o Estado revelar que o abrigo, ligado à Igreja Católica, registrou 14 mortes em um mês. Outros 19 internos foram hospitalizados no mesmo período, mas sobreviveram. A maioria tinha quadro de diarreia, vômito, desnutrição, desidratação ou intoxicação alimentar.

Documentos apresentados nesta quarta por representantes da Missão Belém descartam que as mortes tenham sido causadas por infecção gastrointestinal, mas, segundo especialistas, a doença pode ter agravado o quadro dos pacientes.

Na vistoria desta quarta, as autoridades visitaram as dependências dos sítios e recolheram documentos sobre os residentes do local que ficaram doentes. “A Vigilância Estadual começou a fazer um levantamento dos pacientes que foram hospitalizados para entender o que aconteceu e onde o surto de diarreia começou”, disse o secretário da Saúde de Jarinu, Antenor Gomes Gonçalves.

Na semana passada, amostras da água consumida no local e de fezes dos doentes foram colhidas pelo Instituto Adolfo Lutz. Nesta quarta, o laboratório descartou contaminação no líquido. Os resultados dos exames de fezes devem ficar prontos somente no fim da semana. “Segundo os agentes que fizeram a coleta, o cheiro das fezes era insuportável, o que pode ser característico de uma infecção intestinal”, disse Gonçalves.

Rotina

As vigilâncias verificaram que o funcionamento de um dos sítios foi alterado após o surto de diarreia. Na propriedade que abriga mais de 200 idosos e conta com 25 casas, os doentes foram confinados em um dos imóveis para evitar novas contaminações. Foi definido ainda um cardápio com alimentos recomendados para pacientes com quadros de infecção gastrointestinal.

Segundo Gonçalves, os órgãos municipal e estadual deverão exigir mudanças na estrutura da Missão Belém em Jarinu, de acordo com o serviço prestado. “Para mim, eles fazem um trabalho de comunidade terapêutica, mas não tem licença para isso, então precisariam se adequar”, disse o secretário.

Certidões de óbito apresentam causas variadas

Certidões de óbitos dos 14 mortos apresentadas nesta quarta por representantes da Missão Belém mostram que as vítimas morreram por causas variadas, como sepse (infecção generalizada), insuficiência cardíaca, edema agudo do pulmão e pneumonia.

Segundo especialistas, no entanto, quadros de diarreia e intoxicação alimentar podem ter piorado a situação dos abrigados já doentes. “Quando a pessoa é idosa e tem sistema imunológico falho, uma infecção intestinal pode ser uma facilitadora do agravamento do quadro”, diz o infectologista Marcos Boulos, coordenador do controle de doenças da Secretaria da Saúde de São Paulo.

Fundador da Missão Belém, o padre Giampietro Carraro disse nesta quarta, em nota, que “pode ser que os problemas intestinais tenham agravado o quadro já difícil” de alguns pacientes, mas que a intoxicação não pode ser considerada a causa da morte. O religioso reiterou ainda que a Missão Belém não é clínica nem abrigo, mas, sim, “uma família para quem não tem família”, que faz um trabalho “que caberia aos órgãos públicos” sem receber nada dos governos. “Foram milhares os doentes acolhidos das ruas nesses 12 anos. Muitos recuperaram a saúde, mas alguns vieram a falecer e os acompanhamos como uma família, até a morte”, disse o religioso.

A Arquidiocese de São Paulo, em nota, lamentou as mortes, mas ressaltou que a Missão Belém tem acolhido moradores de rua “muitas vezes rejeitados pela sociedade” e sem contar com verbas públicas. 

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