Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Vigia nega delação premiada e volta a dizer que foi forçado a incriminar Mizael

Em meio a contradições, Evandro reafirma que foi torturado para dizer que réu matou advogada

Eduardo Roberto, estadão.com.br

21 de outubro de 2010 | 19h13

GUARULHOS - Terminou por volta das 18h desta quinta-feira, 21, a audiência do caso Mércia Nakashima. O último depoimento colhido foi do réu Evandro Bezerra da Silva, o vigia acusado de ter colaborado com Mizael Bispo Ferreira no assassinato da advogada.

 

Veja também:

linkMizael não explica ligações e diz que fará 'investigação própria'

linkAlga no sapato de Mizael é igual à de represa onde Mércia estava, diz perito

linkAcusados vão continuar soltos

especialCobertura completa do caso Mércia

 

Antes de começar o depoimento, o promotor Rodrigo Merli Antunes lembrou o acusado dos benefícios cedidos pela Justiça em caso de delação premiada, que pode diminuir a pena de um a três terços em caso de condenação. O advogado de Evandro, José Carlos da Silva, porém, rejeitou a oferta. "É um mal necessário, porém induziria ao crime de falso testemunho", disse o defensor. O vigia alegou inocência.

 

No momento de sua prisão, em Sergipe, Evandro chegou a confessar ter ido buscar Mizael na represa em Nazaré Paulista, onde foram encontrados o carro e o corpo de Mércia. Ele afirmou ter sido torturado momentos antes do delegado que cuidou da investigação em São Paulo, Antonio de Olin, colher o seu depoimento.

 

Segundo o vigia, Olin disse: "Vim aqui para ajudar e ser ajudado. Você não matou, mas deve ter colaborado com Mizael." Depois disso, Evandro relata que foi levado a uma sala na delegacia de Aracaju, e lá teve os pés amarrados e a boca fechada com fita crepe. "Eles colocavam um saco plástico na minha cabeça, e só tiravam quando eu batia os pés", contou. "Depois da quarta vez que fizeram isso, desmaiei."

 

Ele também afirma que durante a viagem o delegado fez pressão para que o seu relato não fosse alterado no próximo depoimento, assim que chegassem a São Paulo. Evandro alega que Olin teria lhe contado os detalhes de sua investigação, para que repetisse.

 

Contradições. Ao longo de seu relato, o vigia se contradisse em alguns momentos. Em depoimentos anteriores, em que ele admitiu a participação, Evandro disse que ao voltar da represa com Mizael eles teriam passado por uma barreira policial na estrada. Hoje, o vigia afirmou que ficou sabendo desse detalhe através de Olin, durante a viagem de avião de Sergipe para São Paulo. A promotoria, no entanto, lembrou que o testemunho colhido ainda no Nordeste já continha essa informação. Nesse momento, Evandro gaguejou e acrescentou: "Agora lembrei que o delegado me contou isso antes da viagem."

 

Outra contradição surgiu quando Evandro foi perguntado se tinha visto o corpo de Mércia ser retirado da represa, em 11 de junho. Um irmão do vigia mora nas proximidades do local. Segundo o próprio Evandro, a casa fica "a cerca de 250 metros" da represa, e de lá seria possível ver o ponto onde o corpo foi encontrado. Primeiro ele afirmou ter presenciado o fato, mas logo em seguida negou, acrescentando que no dia estava trabalhando.

 

O juiz também lembrou que Evandro viajou para o Sergipe em 12 de junho, um dia depois da polícia achar o corpo da advogada. Ele teria ido de ônibus, por uma empresa clandestina que opera na região do Brás, em São Paulo. O delegado Olin procurou o vigia nos dias seguintes, mas nem os familiares sabiam do seu paradeiro. Ele alegou que estava apenas passeando pelo Nordeste, visitando membros da família. Também afirmou que só ficou sabendo que era suspeito do caso através da imprensa.

 

Telefonemas. A versão de Mizael, de que ele e o vigia teriam se falado cerca de três vezes ao celular durante o dia crime, 23 de maio, foi sustentada por Evandro. Mas, de acordo com os dados colhidos pela investigação a partir dos dados dos celulares dos réus, 16 ligações foram completadas entre os dois.

 

Na saída do fórum, Ivon Ribeiro, da defesa de Mizael, comentou que "a audiência andou bem" e que a primeira fase foi encerrada. Para ele, o depoimento do vigia não teve grandes contradições.

 

Evandro foi o último a ser ouvido na audiência que vai determinar se os réus serão julgados em júri popular ou não. A decisão, porém, não será tomada nesta semana. A defesa entrou com um recurso de competência, que pede que o julgamento ocorra em Nazaré Paulista, e não em Guarulhos.

 

Tudo o que sabemos sobre:
caso Mércia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.