Vídeo levanta mais dúvidas sobre morte em Sydney

Brasileiro não seria nem o homem que aparece sendo atingido por armas Taser nem o ladrão de loja que motivou perseguição policial

JORGE BECHARA / SYDNEY , CAMILA BRUNELLI / SÃO PAULO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 Março 2012 | 03h01

Uma série de dúvidas levantadas pelo vídeo que mostra o brasileiro Roberto Laudisio Curti, de 21 anos, sendo imobilizado e atingido por policiais de Sydney, no domingo, pode mudar o rumo das investigações. A polícia está averiguando câmeras da cidade e o resultado da necropsia e das investigações começarão a ser divulgados hoje, quando também ocorrerá uma reunião de autoridades policiais no Consulado do Brasil.

Segundo informou o jornal The Sydney Morning Herald, o brasileiro seria suspeito de levar um pacote de biscoito de uma loja de conveniência, às 5 horas de domingo (hora local). A polícia foi avisada e, meia hora depois, iniciou a perseguição ao brasileiro na área de King's Cross, conhecida pela vida noturna. Cercado por seis agentes, ele foi alvo de pelo menos quatro golpes de uma arma Taser (pistola de eletrochoque).

Laudisio morreu perto do prédio onde funciona o Consulado do Brasil em Sydney. Amigos e familiares afirmaram às autoridades brasileiras que a pessoa perseguida no vídeo divulgado mundialmente não é o brasileiro - e ele também não seria o responsável pelo furto. Segundo os funcionários da loja roubada, o ladrão estava usando uma camiseta branca, enquanto o suspeito perseguido e morto pela policia estava sem camisa. A polícia tem as imagens do furto, mas não as divulgou. "Tudo indica que foram duas ocorrências diferentes", lamentou o cônsul adjunto do Brasil na Austrália, André Luís Costa Souza.

O Itamaraty ressaltou que permanece em contato permanente com a família da vítima e "deplora" o que ocorreu no domingo. "De qualquer maneira, a morte de um cidadão brasileiro nessas circunstâncias, qualquer que sejam as explicações, sempre será objeto de preocupação do governo brasileiro e nós lamentamos profundamente isso", afirmou o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. "O Consulado-Geral do Brasil em Sydney e a Embaixada do Brasil em Camberra foram instruídos a prestar toda a solidariedade e apoio à família da vítima, bem como a solicitar os devidos esclarecimentos às autoridades", ressaltou o Itamaraty

Visto. Outro questionamento envolve o visto do brasileiro na Austrália. Jornais locais assinalaram a possibilidade de existir algum problema, que poderia até ter causado a fuga da vítima. O Departamento de Imigração Australiano, responsável pela emissão de vistos, ainda não se pronunciou.

Em caso de cursos de menos de dez meses, a Austrália geralmente dá visto de estudante para a duração do curso e mais um mês (que conta como férias). Se Laudisio foi em agosto, ele estava lá havia sete meses - teoricamente dentro do permitido, mas pode haver diferença de dias no registro. A família diz desconhecer a possibilidade de que ele estivesse com o visto vencido. "Não sabemos disso", disse um parente no Brasil, que pediu para não ser identificado.

Protesto. Os amigos e familiares de Laudisio combinaram por redes sociais um protesto, inicialmente para hoje, em Sydney - os detalhes não haviam sido confirmados. No Brasil, outra manifestação deve ocorrer no dia 30, na frente do Consulado-Geral da Austrália, na Al. Santos, em São Paulo. A ideia é que cada um dos participantes leve um pacote de biscoito para deixar na representação diplomática.

"Roberto Laudisio não precisava pegar nada e tampouco roubar, e todos nós sabemos disso. Já que foi morto por um pacote de biscoitos, devolveremos o quanto pudermos de pacotes de biscoitos para este país de 1.º mundo que se chama Austrália", diz o convite feito no Facebook a mais de 12 mil pessoas.

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