Viciados pelo sol de Ipanema

Correr vicia. Quem pratica sabe do prazer e da dependência. Basta ficar alguns dias sem correr para o corpo reclamar. Tomar sol também vicia. Basta passear por Ipanema e olhar em volta. Nos países frios, clínicas de bronzeamento são um ótimo negócio. Agora, um grupo de cientistas descobriu que o vício de correr e o vício de tomar sol têm a mesma origem, a beta-endorfina.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2014 | 02h05

O uso do ópio é antigo, mas seu princípio ativo, a morfina, só foi isolado em 1804, por Friedrich Sertürner. O cientista começou a distribuir morfina em 1817. Dez anos depois, a Merck passou a vender o composto, mas seu uso em larga escala começou em 1857, quando a agulha hipodérmica foi inventada. Desde então, a morfina se tornou um medicamento importante, principalmente por ser um potente analgésico. Mas, tal qual o ópio, a morfina cria dependência.

Foi por volta de 1960 que os cientistas começaram a se perguntar como uma molécula produzida por uma planta, e ausente no corpo humano, era capaz de agir sobre nosso sistema nervoso. Imaginaram que nosso corpo deveria ter um receptor capaz de ser ativado pela morfina. Bastou procurar. Em 1971, o receptor foi descoberto. Mas o problema voltou. Se existe o receptor capaz de se ligar à morfina, e a morfina não existe em nosso corpo, alguma outra molécula deve existir no nosso corpo que se liga a esses receptores. Novamente foi só procurar para achar. As endorphins (endogenous morphines) foram descobertas três anos depois, em 1974. E, desde então, a função das diversas endorfinas, e dos seus receptores, vem sendo investigada. Entre outras funções, sabemos que elas suprimem a dor imediatamente após um acidente (muitas pessoas não relatam dor após levar um tiro ou sofrer um acidente grave).

Uma dessas endorfinas, a beta-endorfina, é liberada quando fazemos exercícios intensos e é a causa do prazer sentido pelos corredores. Agora foi descoberto que, pelo menos em ratos, a beta-endorfina também é liberada pela ação do sol sobre a pele. Quando expostas à luz intensa, as células da pele produzem uma proteína chamada proopiomelanocortina. Essa proteína é cortada por uma enzima e produz uma molécula de melanocortina e uma molécula de beta-endorfina. A melanocortina age sobre nossos melanócitos e induz a produção de melanina. É por isso que nossa pele escurece. Mas qual seria a função da beta-endorfina?

Guiados por evidências indiretas de que pessoas que se submetem a tratamentos com luz UV se viciam, os cientistas decidiram verificar se ratos submetidos a banhos intensos e prolongados de luz solar ficavam viciados. A resposta é sim. Ratos submetidos a esse tratamento voltam sempre que podem ao sol. Suportam melhor a dor, toleram a dor para poderem voltar ao sol, e sofrem sinais típicos de abstinência à morfina quando impedidos de tomar sua dose diária de sol. Experimentos com drogas que bloqueiam o efeito da morfina (naloxene) confirmaram a dependência. Finalmente, ratos transgênicos incapazes de produzir beta-endorfinas na pele não ficam viciados como os ratos normais.

Todos esses resultados indicam que a produção de beta-endorfinas, induzida por exposição prolongada ao sol, é capaz de viciar um rato. Muito provavelmente um mecanismo semelhante que leva seres humanos a voltar à praia para sentir prazer todos os dias.

A conclusão é que o mesmo mecanismo que dá prazer aos corredores de maratona é responsável pelo prazer que sentimos ao ficar estirado ao sol por longos períodos de tempo. Não é à toa que é quase impossível convencer as pessoas a se privar do sol, mesmo explicando que os mesmos raios UV que nos dão prazer provocam câncer de pele.

Agora, se você quer mesmo sentir o efeito das endorfinas, imagino que o melhor é correr uma maratona, sem camisa, na calçada de Ipanema. Se a dor muscular e as queimaduras vão compensar o efeito prazeroso das endorfinas, é outra questão.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: SKIN BETA-ENDORPHIN MEDIATES ADDICTION FOR UV LIGHT. CELL VOL. 157 PAG. 1527 2014

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