Viciada fica sem ajuda na cracolândia

Mulher pede internação em tenda recém-inaugurada pela Prefeitura, mas é orientada a comparecer 2 dias depois em AMA da região

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2012 | 03h05

Quando viu ser erguida a tenda do Centro de Atendimento ao Trabalho (CAT) da Prefeitura ontem, na Rua Dino Bueno, na cracolândia, a assistente administrativa desempregada Márcia Aparecida de Souza, de 49 anos, encheu-se de esperança de conseguir tratamento contra o crack. De lá, saiu com a orientação de assistentes sociais para comparecer dois dias depois na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Boracea, a dois quilômetros dali.

"Sou uma dependente química e, até lá, continuarei fumando crack", disse Márcia. Franzina e curvada, ela aparenta pelo menos 20 anos a mais do que tem. Estava decepcionada porque, na tenda onde havia cerca de 20 funcionários da Prefeitura, ninguém podia ajudá-la. "A coisa mais difícil é conseguir uma internação. É muito ruim você querer largar a pedra e ver que não pode ficar sem ela", disse.

O Estado levou a mulher até agentes de saúde e assistência social que estavam perto, na esquina da Dino Bueno com a Rua Helvétia, que confirmaram que esperar era a única opção para Márcia. "E chegue cedo no Boracea, porque as vagas acabam rápido", disse uma das funcionárias da Prefeitura.

Márcia contou que já tentou o tratamento em um Centro de Atendimento Psicossocial (Caps). "Não deu certo. Eu precisava ser internada mesmo, senão não posso voltar para casa", afirmou Márcia.

Desespero. Desde dezembro, ela não vê os filhos, de 10, 12 e 27 anos. O único contato de Márcia com sua família é a mãe. "Depois de muito tempo, liguei para minha mãe ontem. Ela disse que veio me procurar três vezes e não me encontrou", disse.

Na noite de ontem, a reportagem conversou por telefone com a mãe de Márcia, a aposentada Ivone Correia de Souza, de 69 anos. "A polícia só faz pressão e na hora de arrumar tratamento para ela ninguém arruma", disse ela, que cria os netos.

Ivone contou que a filha tem problemas com drogas desde a adolescência.

A situação de Márcia é ainda mais dramática por ser portadora do vírus da aids. "Faz quatro meses que não tomo o coquetel antiaids", afirmou ela, antes de sumir pela cracolândia.

Em conversa informal, as assistentes sociais que atuavam na tenda do CAT confirmaram a dificuldade de conseguir internação na rede pública. "Fiquei sabendo que uma viciada que encaminhei na semana passada só conseguiu a internação ontem", disse uma funcionária. Outra afirmou que o encaminhamento de Márcia para a AMA Boracea foi marcado para quinta-feira porque o espaço não abriria hoje por causa do feriado.

Apuração do caso. A Assessoria de Imprensa da Prefeitura informou que o tratamento descrito por Márcia não corresponde aos padrões. "Os fatos estão sendo apurados e, se comprovados, serão adotadas as medidas cabíveis", informou nota da administração municipal.

De acordo com o comunicado, a AMA Boracea vai funcionar hoje, ao contrário do que disseram os funcionários. Ainda segundo a nota, um psiquiatra atende no local das 7 às 19 horas.

A nota informou também que agentes do Projeto Atenção Urbana atuam todos os dias, realizando abordagens e encaminhamentos a quem precisa. O serviço tem 330 profissionais e 70 veículos. Além disso, há a Central de Atendimento Permanente e de Emergência (Cape), que funciona 24 horas.

Pelo programa Saúde nas Ruas, há mais 27 equipes com 150 agentes comunitários que são orientados a encaminhar viciados "para tratamento clínico ou da dependência, sempre que solicitarem ou concordarem com a abordagem". O comunicado informou que a decisão de internar ou não os viciados é dos médicos.

Segundo balanço da Operação Centro Legal, 113 pessoas haviam sido internadas até as 17 horas de anteontem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.