Viaturas saem, uso de drogas recomeça

Menos de 3 horas após operação policial, era possível flagrar universitários fumando maconha em bares das imediações do Mackenzie

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Menos de três horas depois da batida policial que deteve 20 jovens, quatro estudantes do primeiro ano do ensino médio do Colégio Mackenzie dividiam um cachimbo de maconha em um bar da "Borba". É assim que os frequentadores chamam a região ao redor da Rua Maria Borba, que tem apenas um quarteirão e vai da Avenida Amaral Gurgel à Rua Doutor Cesarino Motta Jr., em Higienópolis. A Cesarino é oblíqua à Maria Antônia, onde fica a Universidade Mackenzie.

Sentados em cadeiras de plástico amarelo na calçada, os quatro contavam tranquilamente como foi a batida: "Eles (a polícia) vieram em quatro viaturas e fecharam a rua. Eram uns 20 caras. Levaram todo mundo que estava naquele pedaço."

Os estudantes disseram que não conseguem a droga ali. "Não dá para comprar onde você fuma." Eles não quiseram dizer onde compram.

Na outra esquina, um jovem muito magro e pálido de cerca de 20 anos cheirava lança-perfume. Mais acima, um grupo de estudantes de Jornalismo explicava por que frequenta a Borba. "Aqui a cerveja é mais barata (do que nos bares da Rua Maria Antônia) e a gente fica mais à vontade." Um deles enrolava um baseado.

Para a estudante de Pedagogia Rebeca Cunha, de 21 anos, "não é justo associar a batida policial ao Mackenzie". "Você conhece alguma faculdade em que não há usuários de drogas? Todo mundo sabe que, em uma delas, os alunos fumam no Centro Acadêmico. Aqui no Mackenzie, a gente nem pode se sentar no chão do corredor porque os diretores consideram "solo presbiteriano". Mas é claro que, onde tem jovem com grana, aparece traficante."

Rebeca, que não é usuária, afirma que frequenta a Borba desde que entrou na faculdade (ela está no sétimo período). "As pós do Mackenzie ficam em um prédio nessa rua (Maria Borba). A gente tem uma porção de amigos lá", diz.

Na mesma mesa, Aline Rocha, de 20 anos, colega de classe de Rebeca, afirma que o problema na Borba é a falta de policiamento. "Isso aqui está abandonado. Hoje, você vem tomar uma cerveja e tem de ficar olhando para a bolsa", diz Aline.

A dona do bar, Wilza Rangel, sugere à reportagem que passe um dia na Maria Borba, "para ver que tem traficante aqui desde as 8 horas". "O cheiro de maconha entra no meu bar na hora do almoço. Tem uma base da polícia ali embaixo (a cerca de dois quarteirões, na Praça General Jardim), mas não adianta chamá-los, eles não vêm. Estou aqui há um ano, mas já percebi que entrei numa furada. Esse pedaço é um lixo."

Para Wilza, os traficantes não são estudantes do Mackenzie nem os travestis que fazem ponto na calçada da Maria Borba ("eles não aborrecem ninguém"). "O traficante é o marginalzinho que rouba celular, vem aqui para perturbar", diz.

Tiro. Um dos quatro adolescentes do começo da reportagem comentava a falta de movimento, ontem, na Borba. "Tá parecendo segunda-feira, mano", disse.

Entre os motivos apontados por ele para justificar a batida policial está um tiro disparado há cerca de duas semanas, por um traficante, no bar onde eles estavam. "A bala pegou na geladeira", dizem todos, empolgados com os detalhes.

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