Viaduto na Saúde vira pequena cracolândia

Moradores dizem que área tinha moradores de rua, mas agora há 'noias novos' no local

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2012 | 03h03

A região ao redor do Viaduto Jabaquara, na Saúde, zona sul de São Paulo, já está sendo considerada por vizinhos uma minicracolândia. O local, que sempre abrigou moradores de rua, viu o número de usuários de drogas aumentar nos últimos meses, em especial depois da Operação Centro Legal, realizada pela PM em janeiro deste ano.

Na segunda-feira passada, o Estado constatou a presença de pelo menos 25 pessoas, que se concentravam sob o viaduto e circulavam pelas áreas verdes do entorno da Avenida dos Bandeirantes, como as Praças Masaharu Taniguchi e Whitaker Penteado. Em pequenos grupos de duas ou três pessoas, os usuários passam o dia dando voltas na região, atravessam as ruas e avenidas correndo e no meio dos carros, e abordam pedestres e motoristas para pedir dinheiro.

O comerciante José Carlos de Oliveira, de 35 anos, trabalha na região há duas décadas e diz que costumava conhecer a maioria dos moradores de rua. "Depois da operação na cracolândia, a situação aqui aumentou. Só tem 'noia' novo." Ele conta que já viu mães e familiares dos usuários tentando tirá-los dali. "Uma senhora deu dinheiro para a filha adolescente comprar crack achando que a convenceria a voltar para casa. Não funcionou."

Dispersão. O antropólogo e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Rubens Adorno, afirma que a dispersão dos usuários da Luz para outras regiões da cidade era esperada. A lógica da movimentação, segundo ele, é a de sobrevivência e segue o mercado de drogas. "Eles querem ser vistos e ocupam espaços onde há abrigo e que tenham equipamentos urbanos."

Adorno orienta pesquisas sobre a cracolândia há mais de dez anos e afirma que tem observado um retrocesso na atitude dos próprios usuários. "A dispersão coloca-os em uma nova situação e provoca outro tipo de interação com a sociedade, às vezes mais violenta." Para o professor, a "sustentabilidade" que existia na cracolândia - tanto no sistema de trocas quanto na pacificação - foi minada.

Um dos reflexos dessa nova interação é, segundo Adorno, a volta do "achaque", termo usado pelos usuários para a tática de, dependendo da situação, apelar para a violência ou para a caridade das pessoas. "A cracolândia acabou com o achaque, que era mais identificado no início dos anos 2000, quando eles assumiam forma agressiva pelas outras pessoas. Algumas dessas atitudes estão voltando."

A costureira Maria Ferreira, de 62 anos, tenta conviver com os usuários que agora se concentram na esquina da sua casa. "O ditado diz: se você não pode com eles, junte-se a eles. Não nego prato de comida a ninguém e respondo quando me dão boa noite. Só rezo todos os dias para não ser assaltada."

Diariamente, Maria vai até a estação de metrô a pé para buscar a filha que volta da faculdade. Outro filho dela já foi assaltado por um dos usuários, mas correu atrás do menino e conseguiu recuperar o celular. "Eu, você, não podemos fazer nada. A Prefeitura os tira de um lugar e eles se espalham."

Novas operações. Há cerca de um mês, a secretária estadual da Justiça e da Defesa da Cidadania, Eloisa Arruda, revelou que a Operação Cracolândia será estendida para os arredores da Baixada do Glicério, região central, e para a Avenida Jornalista Roberto Marinho, na zona sul, identificadas pela secretaria como locais de concentração de usuários.

Questionada sobre o Viaduto Jabaquara, a secretaria não disse se o local terá ações do governo. Em nota, a Prefeitura afirmou que "pontos onde possa existir a concentração de usuários e de traficantes serão contemplados com ações específicas, nos momentos oportunos, para combater essa 'chaga social'".

Reunião. Dependentes químicos também estão em praças perto do Viaduto Jabaquara

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