Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Viaduto cede e fecha pista da Marginal do Pinheiros por tempo indeterminado

Ao menos 5 carros passavam pelo local, mas não houve feridos graves; Prefeitura diz que não havia detectado risco

Bruno Ribeiro, Leonardo Pinto, Igor Moraes, Paula Felix, Priscila Mengue e Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2018 | 05h42
Atualizado 19 Novembro 2018 | 14h52

SÃO PAULO - Um viaduto cedeu e causou a interdição do trânsito em trecho da pista expressa da Marginal do Pinheiros, perto do Parque Villa-Lobos e da Ponte do Jaguaré, por volta das 3h30 da madrugada de quinta-feira, 15, na zona oeste de São Paulo. Pelo menos cinco carros passavam pela via, mas não houve feridos graves. Não há prazo para liberar o trecho. Para especialistas, a reconstrução da estrutura deve levar pelo menos três meses. 

A Prefeitura afirmou fazer vistorias periódicas nos 185 viadutos e pontes da capital, mas disse não ter identificado “riscos estruturais”. A gestão Bruno Covas (PSDB) informou ter aberto no dia 9 edital para projetos de manutenção preventiva de 33 viadutos e pontes classificados como prioritários – o que cedeu ontem não está na lista. 

Segundo a Defesa Civil Estadual, uma das placas que sustentam o viaduto se descolou, provocou um desnível e formou uma espécie de “degrau” de quase dois metros no viaduto. 

O motorista de aplicativo Eduardo Fuji, de 68 anos, não entendeu o que acontecia ao ver o automóvel da frente rodopiar e sumir. “Sabe como acontece em filme americano, que o carro voa? Vi um carro caindo, desviei e brequei para ajudar, mas caí também”, conta ele, que diz ter ficado com dores no braço e na coluna. 

Segundo Covas, que foi ao local, a estrutura tinha sido vistoriada havia quatro meses e não dava sinais de problema. “A questão foi em uma junta de dilatação e não deu aviso. Não há trincas”, afirmou o secretário de Subprefeituras, Marcos Penido. A Prefeitura prevê fazer o escoramento até o dia 20, último dia do feriado prolongado. “E a partir do momento que tiver o novo apoio, vamos poder estabelecer quais as causas, qual o remédio a ser estabelecido e se vai ser possível liberar faixas desse viaduto durante as obras de engenharia.” 

A interdição, no sentido Castelo Branco, vai da Ponte Transamérica à Ponte do Jaguaré. O fluxo está sendo desviado para a pista local. O transtorno no trânsito só não foi maior ontem pelo número menor de veículos do que nos dias úteis. 

Para o professor de Engenharia do Mackenzie, Eduardo Deghiara, a recuperação deve levar pelo menos três meses e será preciso reconstruir o “berço”, estrutura entre o pilar e a viga. Para evitar acidentes em viadutos, diz, é preciso ter vedante flexível na junta de dilatação para que não haja espaços vazios causados pela variação do tamanho da estrutura com a temperatura. Também é importante ter pastilhas de plástico no interior, para que a chuva não entre em contato com o aço. 

“Não vejo possibilidade de ser menos que três meses, mesmo trabalhando dia e noite”, diz Gilberto Giuzio, diretor do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco).

Covas disse que o Programa de Recuperação de Pontes e Viadutos foi suspenso na gestão Fernando Haddad (PT) e retomado em 2017. O edital para fazer projetos de recuperação dos 33 pontos prioritários – entre eles o Viaduto Brigadeiro Luiz Antônio e a Ponte das Bandeiras – foi lançado após liberação do Tribunal de Contas do Município (TCM), que havia apontado irregularidades no processo. A expectativa é de que em três meses a empresa seja contratada e o serviço, retomado. 

Ainda conforme a gestão Covas, houve aumento de verba destinada à parte específica do orçamento para ações em pontes e viadutos. O valor empenhado este ano foi R$9,5 milhões, ante R$ 2,9 milhões em 2017. Já a assessoria de Haddad disse ser “irresponsabilidade” atribuir culpa à gestão anterior.

SP negocia com Ministério Público acordo para obras em pontes

Problemas em pontes e viadutos não são novidade na capital paulista. Prefeitura e Ministério Público Estadual (MPE) firmaram em 2007 um Termo de Compromisso e Ajustamento de Conduta (TAC) para implementar um programa de manutenção permanente dessas estruturas. O Município se comprometia a realizar anualmente a reforma de pelo menos sete pontes ou viadutos, atingindo 50 obras até 2017, além de inspeções rotineiras. 

O TAC não foi cumprido e, em 2014, a Promotoria multou a Prefeitura em R$ 34 milhões. Agora o Município negocia com o MPE um novo acordo e propôs que o valor da multa seja convertido em obras de manutenção e recuperação de pontes e viadutos, segundo a gestão Bruno Covas (PSDB).

Em abril de 2017, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) fez análise de 73 viadutos e pontes de São Paulo. Em todos, detectou problemas – grande parte nas juntas de dilatação, como infiltração, fissuras e até preenchimento irregular de concreto. O relatório ajudou a Prefeitura selecionar as 33 estruturas com maior demanda para lançar este mês o edital de projetos de reparos. 

Em novembro de 2017, um bloco do Viaduto Fepasa, na Avenida do Estado, região central, desabou sobre o carro da juíza Adriana Nolasco, que morreu. “Não precisa cair um viaduto para provocar uma tragédia. Basta cair um pedaço do concreto”, destaca Gilberto Giuzio, diretor do Sinaenco. 

Algumas estruturas tiveram mais de um problema nos últimos anos. A Ponte dos Remédios, zona oeste, por exemplo, teve ao menos dois: em 2011, um pedaço de 30metros da parte lateral caiu sobre o Rio Tietê; em 1997, uma rachadura já havia surgido no local. 

'De repente, sumiu o chão'

O analista de sistemas Ronaldo Parente, de 42 anos, era um dos cinco motoristas que estavam no viaduto no momento do incidente.  "Tinha dois carros na frente e, de repente, sumiram as lanternas deles. Falei: ‘Meu Deus, o que acon...’, aí também caí, despenquei dois metros. Conforme meu carro deu a pancada na frente, vazou óleo, rodou e bateu com tudo na mureta lateral. Daí vieram mais dois carros. O pessoal acenou (para que parassem) e teve mais um que quase desceu Não sei se acharam que era arrastão. Mas, graças a Deus, todo mundo freou e não caiu", conta.

"Era um lugar sem visão, como um ponto cego. A gente estava andando e, de repente, sumiu o chão. Foi perda total no carro e, infelizmente, meu seguro só cobre roubo."

 

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