Via Amarela transferiu técnicos após acidente do metrô em SP

Engenheiro da comissão do IPT revela bastidores da investigação do acidente que matou 7 pessoas em 2007

Eduardo Reina, de O Estado de S. Paulo,

21 de agosto de 2008 | 08h59

O principal desafio da comissão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) durante a apuração das causas do acidente na Estação Pinheiros da Linha 4 - Amarela do Metrô foi conseguir ouvir os principais envolvidos na obra, pois o Consórcio Via Amarela transferiu algumas dessas pessoas para outros locais, logo após o desabamento. Outra dificuldade foi confirmar a veracidade de alguns depoimentos.   Veja também:  Especial sobre o acidente do Metrô    Em entrevista ao Estado e à revista eletrônica e-ABMS, da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), o engenheiro André Assis, integrante da comissão, revelou bastidores da investigação do acidente que matou sete pessoas em janeiro de 2007, contou que o projeto original não foi seguido pelo construtor, Consórcio Via Amarela, que o plano de emergência para evacuação da obra não estava bem treinado e não foi executado à risca, que o Metrô não fiscalizou os trabalhos como deveria e que o contrato utilizado, turn-key, não é adequado para esse tipo de obra subterrânea de infra-estrutura por causa de riscos geológicos.   Os principais trechos da entrevista com detalhes das investigações:   Desvios de Projeto   "Quando os técnicos detectaram rachaduras no túnel, era preciso interromper imediatamente a obra. Os instrumentos mostraram que alguma coisa diferente estava acontecendo."   "O projeto não foi seguido à risca. Era preciso executar as escavações com certo cuidado, com certo distanciamento das paredes dos túneis. Isso não aconteceu."   "As escavações deveriam ocorrer do Poço da Rua Capri para o fundo do túnel. Mas no segundo terço da obra foi feito ao contrário, do fundo do túnel para o Poço Capri. isso provoca diferença em termos de estabilidade."   "As escavações deveriam respeitar a altura de 4 metros. Mas estava entre 4,8 metros e 5,2 metros. É importante destacar que isso é apenas na Estação Pinheiros. Não tem nada a ver com o resto da obra."   Consultores Internacionais   "Houve forte reação negativa à presença de estrangeiros na Comissão. O CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) chegou a exigir que eles tivessem diploma reconhecido e registrado no Brasil. Devido a essas restrições, os consultores internacionais tiveram que trabalhar em seus países de origem, com a documentação que a Comissão lhes enviava. As visitas deles ao Brasil tiveram cunho pessoal, uma vez que não poderiam trabalhar aqui."   Dificuldades Depoimentos   "O Consórcio transferiu rapidamente, para outras obras, as pessoas que estavam, de algum modo, envolvidas com a Estação Pinheiros. Não acho que isso seja errado. É bastante traumático para qualquer um, seja ele um operador ou um engenheiro responsável, ficar trabalhando em uma obra onde houve um acidente. Isso em tese não é ruim. (Fábio Gandolfo, que foi transferido para uma obra na Venezuela) Mas esse fato também causou à Comissão uma série de dificuldades para se obter as informações relevantes."   "A transferência de pessoal foi uma estratégia do consórcio para dificultar as investigações. Falar com as outras pessoas foi muito complicado. Ou elas não compareciam ou o conteúdo dos depoimentos era questionável. Pela lei brasileira, as pessoas podem omitir informações ou não falar a verdade para não gerar provas contra si."   Traçado da Linha 4   "Quem decide o local de um túnel urbano não é a geologia, é a demanda. A linha do metrô tem de passar onde há gente, onde há demanda por transporte público. Não adianta construir uma estação 500 metros antes ou 500 metros depois do local de concentração da demanda. Não temos que discutir se a linha está no melhor lugar ou não. Fica para a engenharia a responsabilidade de encontrar a solução técnica mais adequada."   "Não se escolhe geologia, não se escolhe profundidade. O túnel deve estar onde houver demanda. A engenharia tem de lidar depois, no momento da construção, com inúmeras interferências - prédios, tubulações, redes diversas, avenidas e outras estruturas e atividades urbanas."   Contrato Inadequado   "O contrato turn-key, na sua concepção original, não serve para a execução de obras subterrâneas de infra-estrutura. Não serve exatamente devido aos riscos geológicos envolvidos. Fica muito difícil codificá-los e embuti-los dentro de um contrato de preço global. A tendência mundial hoje não é, no entanto, a adoção de contratos de preço unitário, que podem elevar substancialmente o valor final da construção."   "A tendência mundial hoje é por modelos contratuais que levam em conta o preço global e, ao mesmo tempo, privilegiam a gestão compartilhada dos riscos. Não se busca suprimir o preço global, que é mantido. A diferença é que cada uma das partes deve assumir a sua parcela de risco. O proprietário, por exemplo, deve assumir o risco geológico. Se a informação geológica transmitida ao contratante não for de boa qualidade e resultar em surpresas, quem paga por isso é o proprietário."   "Outra característica das modalidades mais recentes de contratação diz respeito à forma como o proprietário exerce as suas responsabilidades. O proprietário quer fiscalizar mais de perto, acompanhar a obra, sugerir mudanças e correções de rumo. A construtora não fica totalmente livre, como no turn-key clássico. É obrigada a se submeter ao proprietário: isso já está contratado, ambas as partes sabem disso. A tendência mundial hoje é que os contratos sejam celebrados com preço global - só que com amplo controle por parte do proprietário."   Erros do Metrô   "O Metrô falhou com parte da sua responsabilidade. A companhia deveria ter liberado, a tempo, os terrenos para que o consórcio pudesse começar as obras. Essa liberação não se fez no prazo previsto, gerando atraso de vários meses no cronograma da obra - o que, por sua vez, implicou em prejuízos financeiros ao construtor, que já teria os equipamentos mobilizados para o início dos trabalhos."   "O Metrô teve três falhas contratuais fortes. Uma delas foi essa, o atraso no pagamento de indenizações e na conseqüente liberação de terrenos que seriam utilizados como canteiros de obras. A outra foi alterar o contrato logo de início, com a inclusão de uma nova estação que não estava prevista no projeto licitado."   "Não é recomendável queimar ‘gorduras’ financeiras contratuais, através de um aditivo que altera o preço anterior para incluir a nova estação. Esse fato já demonstra que a obra teve problemas de gestação. Depois de tanto tempo de análise e estudos, como é que se deixa de incluir uma estação que, de repente, passa a ser importante?"   "São dois erros contratuais primários: alterar o escopo e não cumprir as responsabilidades de liberações de áreas necessárias para as obras. Houve um terceiro erro. Nunca ficou muito bem entendido para o Metrô, dentro desta nova modalidade contratual, qual deveria ser o seu papel durante a obra, em termos de controle, de fiscalização etc."   Fiscalização Falha   "O Metrô ficou sempre numa posição muito hesitante. Diante dessa nova modalidade contratual (turn-key), a companhia não sabia se de fato podia controlar a obra. Ou se, caso o fizesse, iria interferir na responsabilidade do empreendedor. Essa hesitação quanto ao papel que deveria exercer deixou a equipe do Metrô meio perdida. Conversando com as diversas pessoas da companhia envolvidas com a obra, não foi possível identificar muito bem o papel de cada um dentro das responsabilidades contratuais."   Plano de Emergência Falho   "O que chamou muito a atenção nesse acidente, desde o início, foi que as vítimas foram, todas, transeuntes. Mesmo o operário que morreu estava dentro de uma área de onde seus companheiros já haviam sido evacuados. Os outros todos estavam passando numa rua depois que sinais de alerta já tinham sido dados. Mesmo assim, o tráfego da rua não foi fechado. Alguma coisa falhou na parte de gestão da obra no que se refere às ações de emergência. Cada equipe deveria ter um treinamento específico para evacuação. Eles não tinham esse tipo de preparo, tanto que houve funcionário que filmou o desabamento com o celular, mas seria melhor ele estar atuando no fechamento da rua ou em outra operação de emergência. Houve também falhas nas ações de emergência, que produziram impactos e conseqüências muito graves, como as mortes de seis pedestres que estavam na rua ao lado. O plano de fuga não era tão cuidadoso."   Texto ampliado às 12h42 para acréscimo de informações.

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