'Vi todos os traficantes crescendo', diz moradora da zona sul

Dona de casa do Jardim Miriam conta que jovens almejam atuar no tráfico e que pancadões aumentaram o uso de drogas na região

Luiz Fernando Toledo e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Moradora do Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo, há 40 anos, a dona de casa Camila (nome fictício), de 60 anos, diz que a presença de traficantes e usuários de droga é rotineira no bairro. “A gente tem de saber lidar com eles. Ainda mais quem tem filho que estuda, sai de casa.”

Por já ser conhecida entre vizinhos, Camila diz que é respeitada e nunca sofreu nenhum tipo de violência. “Eles lá na rua e eu e meu marido aqui em casa. Um não mexe com o outro e está tudo certo”, diz. A vivência de longa data também ajuda. “Esses meninos (traficantes) sabem que eu vi todos nascerem. Em muitos, até dou bronca: ‘Sai dessa, meu filho, vai estudar’. Mas não resolve.” 

A moradora conta que a “profissão” de traficante é almejada pelos mais novos. “Até as crianças veem, é muito comum. Quando vão crescendo, elas se perguntam: ‘O que vou fazer da vida? Vou seguir o caminho do meu pai, do meu irmão. Estudar pra quê?’”, conta. 

Outra reclamação dela é sobre os “pancadões” que acontecem todo fim de semana. “Fazem um barulho insuportável, deixam muita sujeira e droga”, reclama a moradora. 

Mas as festas têm diminuído. Desde o mês passado, após consecutivas reuniões do Conselho de Segurança (Conseg) da região, policiais militares foram mobilizados para evitar a concentração dessas festas no bairro. “Conseguimos diminuir consideravelmente o número de pancadões”, diz o presidente da entidade, Durval Marques dos Santos. 

Durante as reuniões com as lideranças comunitárias, que acontecem uma vez por mês, o Conseg da região busca mapear novas áreas de tráfico de drogas e trocar informações sobre ocorrências na localidade. “Os próprios moradores fazem a denúncia. No entorno da comunidade há pelo menos dez escolas. Os pais não gostam de ver os filhos expostos às drogas e reclamam”, afirma.

Zona leste. Seis dos bairros que mais apreendem drogas na capital ficam na zona leste. São desde distritos mais centrais, como Brás e Vila Alpina, até regiões mais afastadas, como Vila Jacuí e Cidade Tiradentes. 

O distrito de Vila Alpina (56.º DP) atende bairros da Mooca e Alto da Mooca em esquema de plantão. Um morador do local, de 35 anos, atualmente frequentador de um centro de ajuda mútua para dependentes químicos, destaca que a vida boêmia da região e a facilidade de acesso às “bocas” são uma receita explosiva. “A pessoa vai no bar, bebe, perde a inibição e aí desce até a Avenida Presidente Wilson, onde há dois lugares que vendem droga que chamam de boa, porque é muito forte.” 

Para o rapaz, que diz estar há um ano sem usar drogas depois de percorrer todo o caminho que vai do álcool ao crack, é o consumo excessivo do primeiro o que mais preocupa no bairro da zona leste.  “O funk incentiva muito, porque o jovem precisa beber para se desinibir. Aí aprende que não pode se divertir sem isso. E a coisa vai crescendo: cervejinha, baseado, cocaína. O álcool está totalmente ligado à cocaína. E a cocaína, ao crack.”

O jovem argumenta ainda que, nessa porção da zona leste, o fato de as pessoas terem poder aquisitivo maior do que nas regiões mais periféricas acaba sendo um fator que estimula ainda mais o consumo. “Eu não sei qual é o papel da polícia no caso da droga. Nunca pensei nisso. Tem gente que fala que eles ganham para deixar rolar, tem quem fale que eles não vão atrás porque ganham pouco. O trabalho deles é enxugar gelo.”

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