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Vestidos para matar

Dois crimes que ocorreram nas últimas semanas em São Paulo chocaram não só pela violência e brutalidade, mas também pela frieza dos supostos autores. Eles reagiram como se as suas ações fossem naturais e até esperadas diante das circunstâncias.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h04

No primeiro caso, há duas semanas, o estudante de Engenharia Dênis Papa Casagrande, de 21 anos, foi assassinado em uma festa na Unicamp. Dênis teria ido ao banheiro quando, por motivos ainda pouco claros, foi esfaqueado por Maria Tereza Peregrino, de 20, e agredido por um grupo de jovens (entre eles Anderson Mamede, de 20 anos, namorado da garota).

O casal, que continua preso em Campinas, alega que Dênis teria tentado agarrar a moça à força e ela teria agido em legítima defesa. Os amigos do estudante contestam a versão. Em primeiro lugar, pela sua índole e comportamento. Em segundo, porque ele se recuperava de uma cirurgia no joelho, feita há um mês, e mal caminhava sozinho. Maria e o namorado fazem parte de um grupo punk e teriam ido à festa com facas.

Por que alguém que pretende ir a uma festa para se divertir leva uma faca escondida no bolso? O argumento de se defender de uma ameaça parece o mais óbvio e, também, o menos crível. Nessa situação, não seria melhor nem sair de casa? Parece já haver uma predisposição para se envolver em confusão e até um certo orgulho em estar preparado para qualquer tipo de situação.

Quem assistiu à entrevista de Anderson (disponível na internet), dada logo após o crime, se impressiona com os maneirismos, linguagem e frieza. É quase como se esfaquear e agredir fossem a única saída possível. Curioso notar que ele, que inicialmente disse ter sido esfaqueado na perna durante a briga, depois voltou atrás e assumiu que havia se ferido intencionalmente, para tentar evitar um linchamento.

No segundo caso, há uma semana, um racha em uma avenida apertada e escura da periferia de Mogi das Cruzes deixou seis jovens mortos e dois feridos. Reginaldo Ferreira da Silva, de 41 anos, depois de ter bebido duas garrafas de cerveja em uma festa, disse que foi provocado por outro motorista. Em uma via em que o limite de velocidade era de 50 km/h, ele teria acelerado a até 120 km/h, perdido o controle do carro e atropelado um grupo de jovens, que se reuniam com frequência na rua. Fugiu sem prestar socorro e foi preso no dia seguinte. O outro motorista, Paulo Henrique Batista, de 23, se apresentou à polícia na última semana, mas negou ter participado de um racha. Para Silva, no calor do momento, aceitar o desafio parece ter sido a atitude mais natural.

Guiar um carro depois de beber e se envolver em uma disputa perigosa, em alta velocidade, é assumir um grande risco. Guardadas as proporções é como ir a uma festa levando uma faca no bolso. O ponto a se pensar é por que, semana após semana, temos assistido ao que parece ser um escalonamento de violência gratuita, às custas de comportamentos sabidamente perigosos (dirigir embriagado ou carregar armas).

No Brasil de hoje, quase 3 em cada 4 mortes de jovens são provocadas por causas externas evitáveis. Homicídio em primeiro lugar, acidentes com carros e motos em seguida. É bem comum que o álcool (em geral, em excesso) esteja associado a essas duas situações. Se a bebida é uma potente alteradora da nossa capacidade de avaliar riscos e de fazer crítica, detonando explosões de violência, armas e carros são o uniforme perfeito para se usar nessas noites de selvageria.

Sem repensar essa agressividade gratuita e a forma de se relacionar com os outros, vamos ficar cada vez mais acostumados com cenas de brutalidade e com a indiferença dos criminosos. E muitos jovens que, por mero acaso, decidam ir ao banheiro ou conversam em uma esquina qualquer da cidade vão pagar com a sua vida por isso!

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