Vereadores dizem que Zé Careca 'só recebia ordens'

Assessor flagrado em junho marcando presença de parlamentares ausentes foi afastado ontem do plenário pela 1ª vez desde 1994

O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2012 | 03h05

Do líder de governo à bancada do PT, a maior parte das lideranças da Câmara Municipal subiu ao plenário ontem para defender os funcionários afastados do gerenciamento do painel eletrônico. "Essa troca de servidores foi ridícula. Eles só faziam algo após ordens do presidente ou de algum vereador", disparou o ex-presidente e líder do prefeito Gilberto Kassab (PSD) no Legislativo, Roberto Trípoli (PV).

O assessor José Luiz dos Santos, o Zé Careca, flagrado pelo Estado durante três semanas em junho digitando presença para vereadores ausentes, foi afastado ontem do plenário pela primeira vez desde 1994. Três de seus auxiliares também não operam mais o painel e foram realocados em outros departamentos. Ele era o responsável por controlar o sistema de presença dos 55 vereadores desde a época em que a verificação era feita por assinaturas em listas de papel. Ontem a secretária parlamentar Adela Duarte Alvarez, funcionária de carreira da Casa há 19 anos, assumiu a responsabilidade de administrar o controle de quem está nas sessões.

Logo no início da abertura dos trabalhos, após os 30 dias do recesso de julho, porém, o primeiro pronunciamento - do vereador decano do Legislativo, Wadih Mutran (PP), de 78 anos - foi em defesa de Zé Careca, que ontem assistiu à sessão de dentro de uma sala de assessores espelhada que fica ao lado do plenário. "A maior injustiça que eu já vi nessa Casa foi retirar os funcionários do painel. Essa responsabilidade não poderia ficar nas costas deles, esses funcionários apenas acatavam ordens de vereadores", admitiu Mutran.

A mesma defesa foi feita pelo líder do PT, Chico Macena, que criticou as mudanças no sistema de votação adotadas pelo presidente José Police Neto (PSD). "As decisões foram tomadas de modo unilateral, sem consulta às lideranças. Foi um absurdo", criticou o petista, que teve a fala endossada por Adilson Amadeu (PTB). "Os funcionários apenas recebiam ordens da presidência. Espero que o Zé Luiz e os outros funcionários tenham agora um espaço adequado para trabalhar. Eles não podem ser responsabilizados dessa forma."

Outra mudança que irritou as lideranças de partidos foi a retirada do painel de marcação de presença que funcionava atrás do elevador. Para Mutran, Trípoli e José Américo (PT), a retirada foi "ridícula". "Se eu quiser digitar a presença e deixar o plenário para atender alguém no meu gabinete, isso também é trabalho legislativo", disse Américo. Os únicos vereadores que saíram em defesa das alterações no sistema de votação foram os vereadores Carlos Apolinário (PMDB) e Cláudio Fonseca (PPS).

Bastidores. A indignação dos vereadores tem como pano de fundo a campanha das eleições municipais. O novo sistema de presença vai dificultar ainda mais a campanha nas ruas, já que os parlamentares terão de ir pelo menos três vezes por semana às sessões para evitar o desconto de R$ 465 no salário mensal de R$ 9,2 mil brutos.

Em eleições anteriores, era praxe as sessões serem derrubadas durante o segundo semestre para facilitar o trabalho de campanha nos bairros. "Já está todo mundo sem dinheiro, tem a Lei Cidade Limpa que impede a pintura dos muros. Vamos ficar presos aqui no centro falando para os telespectadores da TV Câmara", disparou um parlamentar, que pediu para não ter o nome divulgado.

Transparência. Por outro lado, as mudanças inéditas adotadas pela presidência da Casa foram elogiadas por organizações não governamentais que acompanham o Legislativo. "As mudanças mostram que a Câmara está enveredando para um caminho mais transparente. São alterações que não têm volta, como foi a divulgação dos salários", avaliou Danilo Barboza, diretor da ONG Voto Consciente. "Precisamos agora batalhar para que as alterações no painel sejam colocadas no regimento interno, para realmente não terem volta. Não podemos estar sujeitos a um presidente aventureiro."

O Estado procurou o presidente José Police Neto para comentar críticas e elogios à mudança do sistema, mas ele não quis falar. / ADRIANA FERRAZ E DIEGO ZANCHETTA

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