Bruno Gonzalez/Agência O Globo
Bruno Gonzalez/Agência O Globo

Vereador é preso por chefiar milícia e planejar atentados

Luiz André Ferreira da Silva, que era do PR do Rio, é suspeito de ordenar a morte da atual chefe da Polícia Civil e de deputado

Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2011 | 00h00

O vereador Luiz André Ferreira da Silva (PR), o Deco, foi preso ontem e denunciado à Justiça sob acusação de liderar um grupo paramilitar em 13 comunidades na zona oeste do Rio. Conhecido entre amigos como O Iluminado, Deco é suspeito de ordenar homicídios, estupros, torturas, extorsões, ameaças e crimes eleitorais, de acordo com a investigação.

Informações do Disque Denúncia apontam o vereador como responsável, em 2008, por planos para matar o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Deco também teria planejado, em 2007, a morte da então titular da 28.ª Delegacia de Polícia, Martha Rocha, atual chefe da Polícia Civil do Estado.

Freixo presidiu em 2008 uma CPI na Assembleia Legislativa que resultou no indiciamento de 225 pessoas por envolvimento com milícias. Deco era o último político da lista que ainda não tinha sido preso. A denúncia contra o vereador foi assinada pelo procurador-geral de Justiça do Rio, Claudio Lopes. Houve buscas em 14 endereços, inclusive no gabinete dele na Câmara. "O vereador era o chefe de todas as atividades ilícitas do grupo, se valendo do mandato para garantir certa blindagem", disse o subprocurador-geral de Justiça do Rio, Antonio José Moreira.

Segundo o Ministério Público, a investigação começou a partir de denúncias de dois moradores da região. "A gente não escolhe o trabalho por causa de A, B, C ou D. Não há prerrogativa de se fazer em função disso. Existe uma linha", disse o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, ao responder a uma pergunta sobre a eventual relação entre a prisão de Deco e a ameaça que ele teria feito contra Martha Rocha, que assumiu a chefia da Polícia Civil há dois meses.

A delegada confirmou que o Disque Denúncia recebeu três informes em 2007 de um possível atentado contra ela por parte de milicianos da área que investigava na época (Campinho, zona oeste). Martha, contudo, disse que não pode "dizer se as pessoas detidas estão entre aquelas elencadas (em 2007)".

Foram cumpridos mandados de prisão preventiva contra sete outros integrantes. Deco foi preso às 6h, em casa. Até o início da tarde, também tinham sido presos Edilberto Gomes, o Bequinho, apontado como armeiro, e Arilson Barreto das Neves, o Cabeção, presidente da associação de moradores do conjunto Ipase. Foram apreendidos joias e cerca de R$ 60 mil em dinheiro na casa de outro miliciano, que seria o segundo na hierarquia.

Lista negra. Deco é ex-integrante da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército. Segundo a denúncia, o grupo controlava as 13 comunidades há pelo menos sete anos. Para se impor, a quadrilha "recorria a meios cruéis, como homicídios". Comerciantes são obrigados a pagar taxas de segurança de até R$ 100 por mês. Uma sede da associação de moradores seria usada para agenciar negócios imobiliários. "A quadrilha tornou rotineira a eliminação daqueles que não se submetem às regras impostas (...), sendo certo que chegou a criar a chamada "lista negra", na qual, mensalmente, são relacionados os nomes daqueles que devem morrer", diz a denúncia.

Beltrame disse que "não há jogo ganho". "Temos de avançar. Esse trabalho foi mais um." Ele reconheceu que, mesmo com a prisão do líder, "não quer dizer que nada mais vai acontecer e que as pessoas estão totalmente livres".

O PR informou que Deco foi desligado do partido. "É perseguição política. Não faço parte de milícia nenhuma", disse Deco à TV Globo.

PARA ENTENDER

As milícias surgiram no Rio no início dos anos 2000. Formadas por policiais militares e civis, bombeiros, agentes penitenciários e informantes, chegaram a dominar 400 comunidades carentes - em especial nas zonas oeste e norte da capital - para expulsar traficantes. Começaram, porém, a explorar a venda ilegal de gás, o sinal pirata de tevê a cabo, cooperativas de vans e a cobrar taxas pela proteção de moradores e comerciantes, por exemplo. Têm projeto político e, muitas vezes, são mais organizadas que facções do tráfico.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Marcelo Freixo, DEPUTADO ESTADUAL (PSOL-RJ), PRESIDIU A CPI DAS MILÍCIAS

1. O que representa a prisão de Deco no combate às milícias no Rio?

É muito importante. Era um dos principais nomes indiciados por nós em 2008 e o último braço político solto e exercendo mandato. Mas, se os braços econômicos não forem enfrentados, vão surgir outros.

2. As quadrilhas estão enfraquecidas?

Politicamente, sim, mas territorial e economicamente, não. Só prender os líderes não resolve. As prisões aumentaram, mas as milícias continuam crescendo. Pedimos que o Estado cumpra as nossas 58 propostas.

3. Deco foi preso e desligado do PR, mas mantém o mandato.

A Câmara tem obrigação de entrar com pedido de cassação. Aqui na Alerj cassamos 4 na última legislatura. Não é possível que a milícia continue com seu projeto de poder e os vereadores silenciem.

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