Newton Santos/Hype/DC
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Vereador ''arma barraco'' em feira

Comitiva queria entrar em espaço lacrado, mas Prefeitura não autorizou; indignados, parlamentares xingaram guardas enquanto camelôs apoiavam

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

Uma confusão entre vereadores e guardas-civis que fazem a segurança da Feira da Madrugada paralisou ontem a votação de projetos com novas regras urbanas para São Paulo e criou uma animosidade inédita entre a presidência da Câmara e a gestão do prefeito Gilberto Kassab (sem partido).

Por volta das 11h30, seis parlamentares, entre eles o presidente da Casa, José Police Neto (sem partido), e o líder de governo, Roberto Trípoli (PV), foram barrados por guardas-civis ao tentar entrar no espaço interditado há cinco dias pela Prefeitura no Brás, região central. Os vereadores se indignaram e por pouco não houve um confronto. Sob gritos de apoio de cerca de 200 ambulantes, o vereador Adilson Amadeu (PTB) chegou a furar o bloqueio e escalou o muro de ferro de 3 metros de altura.

Os guardas ficaram cercados pelos ambulantes ao mesmo tempo em que eram xingados pelos parlamentares. No meio do tumulto, os camelôs pediam para o vereador Aurélio Miguel (PR) furar o bloqueio. "Dá um golpe neles Aurélio, você é campeão olímpico, tira a arma deles", gritava um dos camelôs para o ex-judoca, medalha de ouro na Olimpíada de Seul em 1988.

A confusão já era generalizada quando Police Neto, Trípoli e o líder do PSDB, Floriano Pesaro, chegaram à porta da feirinha. Mas de nada adiantou a presença dos governistas. Por celular, o secretário municipal de Segurança, Edson Ortega, avisou que não tinha como fazer a liberação, já que precisava das autorizações de outros órgãos que também interditaram a Feira da Madrugada - o Ministério Público Federal e a Polícia Federal.

A negativa do secretário indignou Police Neto e Trípoli. Mais tarde, o presidente da Câmara, aliado do prefeito Kassab, disse no plenário que "o Parlamento foi desrespeitado hoje (ontem). Tudo isso criou uma tensão muito grande na Casa."

O episódio só não teve desfecho pior porque Ortega apareceu na entrada da feira depois de mais de uma hora e liberou os vereadores para uma visita monitorada. "Só tinha produto pirata, uma vergonha. A Prefeitura assumiu o espaço em novembro e só agora percebeu o contrabando que ocorria lá dentro", criticou Aurélio Miguel. Ele disse que a entrada dos vereadores no espaço está prevista na Lei Orgânica do Município, que prevê o acesso de vereadores a documentos e informações do Executivo.

"O vereador é o fiscal do povo. Eles estavam lá para ver as mercadorias que estão apreendidas desde sexta-feira e que não tivemos acesso", disse Leandro Dantas, presidente do Sindicato dos Camelôs Independentes da Feira da Madrugada.

Para deixar claro a Kassab que estavam indignados, os vereadores suspenderam as duas sessões extraordinárias previstas e convocaram Ortega às pressas. Com a presença de cerca de 50 ambulantes no corredor por onde passou antes de chegar à sala de depoimentos, o secretário foi xingado por Antonio Carlos Rodrigues (PR) logo ao sentar na cadeira. "Aqui você só vai escutar, espera para falar e fica bem quietinho", bradou o vereador, com o dedo em riste.

Ortega voltou a explicar que o Ministério Público Federal e a Polícia Federal também precisariam ser avisados que os vereadores entrariam no espaço.

Impasse. O embate suspendeu o acordo entre lideranças para votar projetos em segunda discussão. Entre as propostas estavam a proibição de som alto em carros parados em lojas e um novo programa de emplacamento de imóveis.

Outro projeto que poderia ser votado obriga que as novas bancas de jornais mantenham um jardim no entorno, dos vereadores Police Neto e Rodrigues. A nova votação deve ser só na terça-feira. "O governo não tem respeito nem pelo seu líder de governo", atacou José Américo (PT), que também foi à feirinha.

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