Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

Velhas guardas abrem noite de desfiles em SP; público fala em expectativa por 'carnaval da vida'

Em carros conversíveis e no chão, cerca de 500 veteranos da folia paulistana foram para a passarela; Acadêmicos do Tucuruvi foi a primeira escola a se apresentar

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2022 | 22h04

O desfile das velhas guardas de todas as 34 escolas ligadas à Liga Independente das Escolas de Samba abriu a noite do Grupo Especial no carnaval de São Paulopouco antes das 21 horas desta sexta-feira, 22. Em carros conversíveis e no chão, cerca de 500 veteranos da folia paulistana desfilaram no sambódromo do Anhembi. A ideia é que o desfile ocorra anualmente no primeiro dia do grupo especial. 

Parte do público chegou cedo. Os espectadores falaram com o Estadão sobre a alegria de estar de volta e a expectativa por testemunharem o "carnaval da vida". 

A recepcionista Ana Lucia de Jesus Correia,  de 65 anos, diz ter sido a primeira a chegar: às 17h10. Presente no carnaval paulistano desde "os tempos da (Avenida) Tiradentes", aposta em um carnaval "diferente e maravilhoso".

No sábado, 23, desfilará pela Império de Casa Verde e acompanhará a sua outra escola de coração, a Gaviões da Fiel, da arquibancada. "Acho que já é diferente porque (este carnaval) está celebrando a vida. Essa é a diferença."

As amigas Maria José, de 69 anos, e Maria Teresinha Muniz, de 75 anos, também chegaram cedinho. Elas vêm desde novinhas e não perdem um carnaval. "A gente vem todo ano, só nestes dois últimos que não, porque a pandemia segurou a gente em casa", conta Maria José. "É uma festa que não dá pra ficar em casa. A gente tem fé, a gente chora", comenta ela, vestida com uma camiseta da Mocidade Alegre, cujos ensaios frequenta quase religiosamente. 

Já Maria Teresinha Muniz diz ser "filha do carnaval" e conta de quando passeava escondido com o pai e os irmãos para aproveitar a festa longe dos olhos da mãe. Hoje em dia, não é diferente.  "Tenho 75 anos, mas ninguém me segura. Só Deus", conta a aposentada, que veste uma camiseta do Palmeiras, em celebração à sua escola, a Mancha Verde. "Venho desde que me entendo por gente no carnaval", destaca.

Os primos Fernando Pasquarelli, de 23 anos, assistente de edição, e Yasmin Hemelrijk, de 16, estudante, estrearam no público do Anhembi. "É a nossa primeira vez. Só tinha ido em bloquinho", diz o jovem. Ele conta estar animado para ver as alegorias e figurinos. "Como faz tempo que não tem, acho que vai ser 'o carnaval'", comenta. Yasmin completa: "Vai ser lindo, um super carnaval."

Autoridades estiveram presentes para fazer a abertura simbólica dos portões. O governador de São Paulo Rodrigo, Rodrigo Garcia (PSDB), comentou que o momento é mais um indicativo de que "a vida está voltando ao normal". "A cidade está vacinada, protegida, com esperança pra dias melhores", comentou. "O carnaval já é tradição aqui, em São Paulo, e, a cada ano, vem se superando. Esse 'carnaval da vida' vai inaugurar um novo momento no carnaval de São Paulo."

Já o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), também repetiu o termo "carnaval da vida", utilizado pela Liga-SP. "Depois de todo esse período de sofrimento, poder estar com as escolas preparadas… Tem que ver a alegria das pessoas que estão desfilando… Todo mundo feliz. Foi muito difícil durante esse tempo todo."

Primeira a percorrer a pista, a Acadêmicos do Tucuruvi voltou ao Grupo Especial levando outras tantas escolas e cordões carnavalescos ao Anhembi. Ela passou com o samba-enredo “Carnavais… De lá pra cá, o que mudou? Daqui pra lá, o que será?”, cantando "O samba não acabou, nem vai acabar. Sou resistência, e você tem que respeitar", cantava a escola, que levou outras tantas ao sambódromo. 

Já na comissão de frente, 14 bailarinos faziam um movimento com as saias em que mostravamos escudos das escolas paulistanas do grupo especial, como Barroca Zona Sul e Rosas de Ouro. Em outro movimento, formavam a frase "sou resistência". A coreografia é de autoria de Fernando Lee.

Logo atrás, veio a ala das baianas, na qual desfilaram 45 mulheres, de 32 a 74 anos, e três homens, como era nos primeiros carnavais paulistanos. O grupo vestia turbantes brancos floridos e tinham um grande coração decorando os vestidos, com laços nas costas.

Na sequência, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por Waleska Gomes e Luan Caliel, desfilou com fantasias douradas e vermelhas brilhosas. O abre-alas fez uma volta ao antigos carnavais, dos corsos, cordões e blocos de rua, propondo uma reflexão sobre a essência da folia. Nas laterais, destaques desfilaram sentadas sobre meia luas suspensas e estandartes lembravam precursores do carnaval paulistano, como a Lava-Pés e o Cordão da Barra Funda. Logo atrás, uma ala inteira trazia desfilantes com as cores e estandartes do Vai-Vai.

No segundo setor, a escola lembrou do carnaval da Avenida Tiradentes, palco do carnaval paulistano antes da construção do sambódromo, nos anos 1990. O segundo carro trazia novamente baianas com vestes tradicionais em meio à chuva de papel picado e dentro de cabines que, ao fechar, exibiam os escudos de escolas de samba paulistanas.

No setor seguinte, a Tucuruvi levou o público ao carnaval mais recente, relembrando o início dos desfiles no Anhembi, das maiores escolas até da criação das agremiações ligadas à torcidas de times futebol. Em uma das alas, desfilantes trajavam as cores da Gaviões da Fiel, por exemplo. Em outra, cada desfilante saía com dois escudos de cada lado da fantasia, como Dragões da Real e Vai-Vai. 

O carro alegórico seguinte trazia o "Cassino Carnaval", com cifrões e livros com títulos irônicos como Guia Prático de Monetizado, Como Garantir o Seu Enredo Patrocinado e Como Conseguir Cortesia na Quadra. Atrás, outros livros abertos questionavam: "Cadê o samba que estava aqui?" e trazia letreiros como "Imperdível", "Promoção", novamente questionando a influência do dinheiro no carnaval.

Por fim, o desfile encerrou com questionamentos sobre o futuro do carnaval, na busca da preservação da memória e no bom uso da tecnologia para incrementar a folia. Na última ala, passistas vestiam trajes futuristas, de cores metalizadas e capacete. 

Segundo a escola, o desfile contou com 1,8 mil componentes, 16 alas e quatro carros alegóricos. Na “Bateria do Zaca”, do Mestre Serginho, foram 220 ritmistas, conhecida pelo “estilo tradicional com batida de partido alto, afinação grave”, na definição da própria escola. À frente, estava a rainha de bateria Cintia Mello, a madrinha, Sheila Hachas, e a Musa, Lívia Nayara.

O samba-enredo é de autoria de Marcelo Casanossa, Rodrigo Minueto, Rodolfo Minueto, Diego Nicolau e Leonardo Bessa, interprete oficial da agremiação. O desfile foi elaborado pelos carnavalescos Dione Leite e Fernando Dias.

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