Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

'Vejo uma regressão ao momento do 'Tropa 1''

Para antropólogo, que é ex-secretário Nacional de Segurança, clima de confronto entre polícia e tráfico dificulta debate sobre políticas de segurança pública

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

O antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor de Cabeça de Porco e Elite da Tropa 1 e 2, vê de forma positiva a operação de ontem no Complexo do Alemão, mas considera o debate sobre segurança "enviesado".

Como o senhor avalia a operação de ontem no Alemão?

O trabalho está sendo feito com prudência e teve resultados positivos. O fato de parte dos suspeitos ter fugido diluiu a resistência e evitou um banho de sangue. A chegada do Estado ao complexo abre espaço para o avanço de políticas sociais que estavam sendo preparadas. Por outro lado, pode frustrar parte da opinião pública que esperava uma batalha final, uma espécie de desembarque na Normandia. E isso porque o tom da cobertura está equivocado.

Como o sr. avalia a cobertura?

O que mais me chocou foi o tom triunfalista nas TVs e revistas. Um dia de cão como quinta-feira apareceu como um dia histórico, de vitórias e grandes conquistas. As imagens, chocantes, contradiziam esse discurso. Mostravam as polícias entrando na Vila Cruzeiro e completavam: "Ninguém foi preso". A polícia não existe no Rio e tem sido parceira e sócia do crime. Não fosse esse apoio, o tráfico não teria alcançado o patamar atual. A banda podre é uma orquestra. É urgente reformá-la.

O sr. acha que existe um efeito pós-Tropa de Elite na forma como as pessoas estão assistindo a essas cenas?

Sinto uma regressão ao Tropa de Elite 1. O filme que agora está sendo projetado na cabeça da população é o primeiro. Era o momento de confronto entre polícia e tráfico, com o protagonismo do Bope e toda a polaridade entre bem e mal. Já o Tropa 2 é mais amargo, difícil de digerir porque traz questões mais complexas, mostra que o verdadeiro problema é outro.

Parece estranho ver o oficial que inspirou o Capitão Nascimento, Rodrigo Pimentel, também seu parceiro nos livros, comentando as ações do Bope diariamente. Como o senhor vê o desempenho dele?

O Pimentel, quando era policial, teve uma trajetória lúcida, crítica, e sempre se preocupou em refletir sobre a polícia. Por ser crítico e eloquente, acabou tendo a carreira trincada, foi preso e punido, situação que o conduziu a outro caminho na vida civil. Mas é natural que ele tenha o coração dividido porque tem amigos no Bope e há algo do caveira que continua. Afinal, ele passou por todos aqueles ritos de passagem. De um lado, há o espírito crítico; de outro, a identificação com sua própria trajetória. Isso pode contaminar as opiniões dele. Mas muito menos que os limites que a própria emissora estabelece por meio de sua linha editorial.

As questões essenciais estão passando ao largo?

Mais que passar ao largo, está havendo uma inversão das prioridades. Nós, em geral, pensamos pelo filtro do bem e do mal, do maniqueísmo mais simples, os mocinhos como oponentes dos bandidos, que seriam os maus. De um lado os policiais, de outro os traficantes. Ocorre que, no dia a dia, ao longo desse processo, essa distinção não existe. O tráfico tem essa dimensão por causa do apoio da polícia, que domina comunidades por meio das milícias.

QUEM É - Luiz Eduardo Soares

Antropólogo, ex-secretário Nacional de Segurança, coautor dos livros Cabeça de Porco, Espírito Santo e Elite da Tropa 1 e 2, base para os filmes da série "Tropa"

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