Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Veja o passo a passo da operação com 10 mortos no Morumbi segundo a polícia

Todas as  mortes no episódio estão sendo investigadas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP)

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 11h01

SÃO PAULO - Na cola da quadrilha há sete meses, policiais do Departamento de Investigações Criminais (Deic) de São Paulo tinham uma informação: o bando iria usar um Fiat Toro e um Hyundai Santa Fé para assaltar a próxima residência na região do Morumbi, na zona sul da capital, onde já haviam feito mais de 20 vítimas recentemente.

Como nenhuma ocorrência do tipo foi registrada no fim de semana anterior, o sinal de alerta acendeu. Os bandidos costumavam atacar aos domingos, então era provável que tentassem algo no dia 3 de setembro.

Por isso, os policiais do Deic montaram uma operação. Com base no histórico de ocorrências na área, definiram um mapa com os locais que poderiam ser alvo do ataque e foram para rua. Não sabiam hora e nem onde seria o possível roubo.

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Com delegados dentro dos carros, viaturas da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio saíram por volta das 13 horas, à procura dos suspeitos. As rondas seguiram por horas. Até que encontraram os dois veículos estacionados na Rua Pureus, no Jardim Guedala, cada um virado para um lado. Também havia um terceiro carro, um Chevrolet Corsa Sedan, com farol aceso, em atitude suspeita.

Segundo as investigações, o bando sempre atuava com armamento pesado - fuzil AR-15, coletes à prova de bala e carros blindados - e também mirava mansões do Jardim Europa, além de condomínios na Grande São Paulo e interior. Os objetos mais procurados eram relógios, joias e dinheiro, cujo valor, às vezes, chegava à casa dos milhões.

"Em vários finais de semana, policiais do Deic estiveram naquele bairro à procura, na tentativa de identificação e trombar com esses indivíduos em ação", afirmou o delegado Antônio José Pereira, titular da divisão.

Por volta das 19 horas, duas viaturas descaracterizadas, uma delas chefiada pelo delegado Ítalo Zaccaro Neto, titular da 2ª Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio, avistaram os assaltantes. Os criminosos ainda não haviam entrado na residência, onde uma idosa, um homem, uma mulher e uma criança seriam rendidos depois.

Neste momento, havia quatro policiais armados de fuzis, contra pelo menos dez suspeitos, também com fuzis, pistolas e revólveres. Sem número para entrar em confronto, os agentes passaram direto, pararam em um posto de gasolina e solicitaram apoio.

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Em 10 ou 15 minutos, chegaram mais duas viaturas da delegacia, cada uma com dois policiais, e outras três do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), com mais dois agentes em cada.

Assalto

A espera pelo reforço deu tempo para os assaltantes atacarem a mansão. Ao menos seis deles ficaram do lado de fora, fazendo a contenção, enquanto outros quatro invadiram a residência, que não tem muro. "A intenção seria a prisão deles mesmo antes do cometimento do crime", disse o delegado José Pereira.

Os criminosos teriam ameaçado a dona da casa e dado uma pancada na cabeça dela, segundo a Polícia Civil. Eles já haviam reunido algumas joias, mas queriam ter acesso ao cofre da casa. O bando chegou a quebrar uma parede, mas desistiu da ação após perceber a chegada dos policiais. "Temos certeza de que foram avisados que nós estávamos chegando", afirmou o delegado Ítalo Zaccaro Neto.

Nessa hora, o delegado subia a rua na viatura que vinha na frente e era seguida por outro veículo do Deic, distante cerca de 20 ou 30 metros. Atrás, mais viaturas faziam bloqueios e tentavam fechar as ruas adjacentes.

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"Quando a gente chega com carro, eles começam a atirar", disse Zaccaro Neto. A primeira troca de tiro aconteceu poucos metros acima da casa invadida. Os assaltantes, então, teriam se dividido em dois grupos iguais e corrido em direção aos carros. Ao tentar escapar, o Fiat Toro colidiu com uma das viaturas do Deic.

 

Confronto

Três suspeitos foram baleados e morreram no local. Outros dois saíram correndo e caíram, mortos, mais à frente. Um na Rua Melo Morais Filho. O outro, o líder da quadrilha Mizael Pereira Bastos, o Sassá, na Rua Santo Eufredo.

A outra parte da quadrilha foi para o Hyundai Santa Fé, que tentou descer a Pureus, mas perdeu o controle e bateu em um poste no cruzamento com a Melo Morais Filho. Prensada contra uma parede, os suspeitos não conseguiram mais abrir as portas do lado direito do carro. Após novo tiroteio, todos foram mortos.

 

Mais tarde, esses cinco corpos seriam enfileirados na rua, sobre mantas térmicas e fora do veículo, antes da realização da perícia. Segundo os policiais, foram equipes médicas que retiraram os suspeitos do carro e constataram o óbito. "Na verdade, nós pedimos socorro ao Samu e aos Bombeiros para levar os baleados ao hospital", afirmou Zaccaro Neto.

Quanto tempo durou a ação? "É muito difícil falar isso. Para a gente que está ali é quase impossível. Para mim, foi quase uma semana", disse o delegado. Ao menos quatro policiais ficaram feridos por estilhaços, um deles o próprio Zaccaro, que foi atingido na cabeça e ganhou um curativo das vítimas do assalto.

 

Os policiais apreenderam com os suspeitos quatro fuzis AR-15 e três revólveres calibre 38, além de duas pistolas: uma .40 e a outra 9 mm  "Se a ocorrência fosse três, quatro meses atrás, a polícia ia abrir caminho porque não tinha armamento à altura", disse o delegado Antônio José Pereira.

 

Agora, os investigadores tentam identificar se houve outros participantes no crime. "Pode ter certeza que existe uma informação privilegiada", disse Zaccaro. A Polícia Civil também investiga se o Corsa era de participantes do roubo. Há suspeita que quatro ou cinco criminosos tenham fugido antes do confronto começar.

Todas as  mortes no episódio estão sendo investigadas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

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