Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Veículos apreendidos correm risco de virar sucata em SP

Roubo, furto, desmanche e vandalismo ameaçam aos 30 mil carros que estão em 38 pátios na capital

Marcelo Godoy, de O Estado de S.Paulo,

26 de outubro de 2009 | 09h47

Carros apreendidos pela polícia desaparecem, pegam fogo ou são desmanchados nos 38 pátios particulares onde deviam estar protegidos. Muitos se tornaram sucata. Há casos de veículos apreendidos sem boletim de ocorrência. Estimam-se em pelo menos 30 mil os carros, motos e caminhões expostos a esses riscos.

 

Enquanto isso, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) aguarda há meses que as delegacias de São Paulo enviem uma lista do que pode ser leiloado. Há pátio em área de proteção ambiental e estacionamento que a polícia diz ainda usar, mas que o dono não vê a hora de fechá-lo, pois não aguenta mais ter de dar explicações pelos furtos de peças.

Para os pátios vão veículos roubados e furtados, carros com chassi adulterado, com dívida de IPVA, com multas não pagas ou envolvidos em irregularidades e crimes de trânsito. O Estado visitou alguns desses lugares e constatou o abandono desses veículos, o desmanche e até a destruição de carros.

O problema chegou ao Ministério Público Estadual, que abriu duas investigações sobre o caso: uma na Promotoria do Meio Ambiente e outra no Grupo de Atuação Especial e Controle Externo da Atividade Policial (Gecep). A lista de pátios foi fornecida pela própria polícia. A pedido do Gecep, cada Delegacia Seccional informou os lugares usados pelos distritos policiais que lhe são subordinados.

Houve quem listasse até estacionamentos usados no passado, mas que estão fechados. Esse é o caso do Pátio Tatine. "Ele está fechado há mais de três anos", disse o comerciante José Manoel Botana Iglesias, de 52 anos, que foi dono do lugar. O comerciante mantém ainda um pátio na Rua Eugênio Falk, na região do Ipiranga, zona sul. Ali, em 5 de fevereiro, 43 veículos foram depenados por ladrões. Os bandidos pularam o muro do terreno e levaram capô, tanques de combustível, portas e peças de motor.

O pior, segundo ele, não são os furtos, mas o fato de ser alvo de processos por apropriação indébita. Por ser depositário fiel dos veículos, ele é responsabilizado por tudo o que some em seu terreno - Iglesias é alvo de 12 ações. Cansado, o comerciante resolveu fechar o pátio. Desde fevereiro, ele tenta livrar-se dos cerca de 700 veículos que lotam o terreno, mas a polícia diz não ter para onde levá-los. E fica tudo do mesmo jeito.

Situação semelhante ocorre com o maior pátio da lista, o Santo Amaro. Ele foi interditado em dezembro de 2008 pelo Departamento de Uso do Solo Metropolitano (DUSM), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Às margens da Represa do Guarapiranga, o pátio foi fechado porque ocupa área de proteção ambiental - haveria risco de contaminação da represa. O lugar também não teria alvará do DUSM - o dono do pátio recorreu da decisão.

Sumiço

Há o caso do sumiço dos carros do pátio que fechou sem a polícia saber. Ele ficava na Rua Tapera, na Vila Nova Curuçá, zona leste da capital. Em 2008, policiais da Delegacia de Repressão a Roubo e Furto de Carros foram lá apanhar um Monza que devia ser leiloado. "Infelizmente, a equipe designada para a missão não logrou localizar o automóvel, mas apresentou relatório dando mostras da caótica situação daquele imóvel, em completo abandono, ao que parece desde o falecimento do responsável", relataram.

Em outro caso, sumiram um Ômega e um Gol. Os investigadores revistaram seis terrenos usados na guarda de veículos sem sucesso. O relatório dos policiais diz que num terreno "havia ainda alguns veículos em seu interior, contudo não se tratando do Ômega e do Gol".

Chamado pelo Gecep para dar explicações na Justiça , o delegado Gilson Cezar Pereira da Silveira, que até a semana passada cuidava no Detran da regulamentação de pátios, resumiu a situação. "Enquanto tudo vai bem, tudo bem; quando surgem os problemas, "vamos arrumar a casa": essa é uma expressão que nós utilizamos."

Leilões

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, para se livrar dos veículos que lotam os 38 pátios usados pela polícia na capital, a ideia é leiloá-los. O delegado Gilson Cézar Pereira da Silveira revelou o plano em depoimento à Justiça. "O Estado tem de ter um depósito para isso. Ao menos a secretaria tem de prover a Polícia Judiciária de um local que ela possa colocar (os veículos)", disse ele no depoimento.

 

Silveira afirmou que o Detran entregou o plano à secretaria em julho. Ele saiu do Detran após a mudança na direção do órgão, no dia 9.Como a polícia não tem para onde levar os carros, a solução para o imbróglio seriam os leilões. Mas, segundo o delegado, as delegacias enviaram até agora "de uma forma muito tímida, quantidades pequenas de veículos".

 

O policial admitiu que nos pátios existem "veículos remontados, um em cima do outro, sucata". O policial disse ter sabido que, num pátio, havia veículo "apreendido sem BO, que não se tem continuidade em inquérito policial". "Eu falei para o meu diretor (o delegado Ruy Estanislau Silveira Melo): aqui está terrível", disse Silva.

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