14-02-2018 WERTHER SANTANA/ESTADãO
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Varejo de drogas é ponta da organização criminosa, diz delegado-geral

Chefe da Polícia Civil defende importância da prisão dos pequenos traficantes pela possibilidade de mapear e combater o crime organizado. 'Temos puxado essa ponta', diz

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Ruy Ferraz Fontes fala com conhecimento de quem tem 31 anos como delegado no Estado de São Paulo, quase dez deles no departamento especializado de repressão ao narcotráfico - sendo uma passagem no início dos anos 1990 e outra como diretor desse departamento de 2015 a 2018. Hoje delegado-geral, ele diz que o tráfico de drogas não é mais como era há 20 anos, quando um criminoso solitário comprava um quilo de cocaína no Mato Grosso, vindo da Bolívia ou do Paraguai, para revender no seu ponto de varejo. “Hoje, o ponto não é mais dele, é de organização criminosa, que coloca esse soldado na ponta para vender e se ele for preso é problema dele, será substituído imediatamente.”

Isso, para ele, mudou a importância que a polícia dava ao combate a esses pequenos pontos de venda de droga. Se antes não tinham tamanha relevância, agora, diz, permite entender como o crime organizado tem funcionado para combatê-lo de forma mais eficaz. “No passado, a pequena apreensão não tinha um valor muito significativo e hoje tem porque você tá lidando com a ponta do crime organizado. Temos puxado essa ponta”, diz. A resposta é dada ao ser perguntado a recorrência da prisão de pequenos traficantes, como apontado no estudo da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ).

Ele explica que o varejista preso só é pego com pouca quantidade porque isso integra a estratégia do crime organizado para minimizar os prejuízos em caso de ação policial. “O traficante sai com 20, 30 unidades. Na hora que acaba de vender, vai pegar mais 30, 40”, detalha. A polícia estima que até 40% dos pontos de venda sejam protegidos por arma de fogo. E isso representa duas coisas: que as armas podem ser usadas com outras finalidades, como para praticar assaltos, e ainda torna o ponto uma referência de poder capilarizado da organização criminosa.

Fontes conta que uma investigação do Denarc que atuou contra um comércio de drogas na Avenida Presidente Wilson, na capital, levou à identificação de um sistema automatizado de recepção e distribuição de drogas. O líder? Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, tido como um dos maiores fornecedores de drogas e armas para o Primeiro Comando da Capital (PCC), muito próximo de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção. Seu nome chegou a ser ligado ao plano de resgate de Marcola da prisão, um dos motivos que fez o Estado de São Paulo transferi-lo para o sistema penitenciário federal.

“A partir da ponta da Presidente Wilson, achamos na Vila Prudente pontos com máquinas automatizadas que embalavam até 150 mil unidades por dia. Elas foram estourados e numa dessas chegamos nele, ele foi indiciado. Não é que não serve (a pequena prisão)”, diz Fontes. A força dos pequenos pontos pode vir a sustentar ações coordenadas da facção, acrescenta. Ele conta que nos ataques de 2006, que paralisaram São Paulo, o poderio de fogo do PCC saiu dos pontos de venda a varejo. “Nesse sentido, temos tudo mapeado. Se um dia isso voltar a acontecer, o que não acredito, já sabemos onde ir.”

O delegado, no entanto, reconhece que a atuação do Denarc, um departamento especializado, não condiz com a realidade das delegacias distritais, onde é registrada a maior parte dos casos de tráfico, e de onde saem poucas investigações que consigam puxar a ponta do crime organizado. Nas distritais, há outras prioridades, como investigação de roubos e furtos, por exemplo.

Fontes diz que, no momento de se realizar a distinção entre traficante e usuário, o mais importante “é a circunstância da ocorrência”. “Foi preso num local que é conhecido especificamente como de tráfico com diversas com diversas ou algumas porções de drogas, dinheiro trocado, foi apanhado junto com ele uma pessoa que estava adquirindo droga. Isso tudo gera um cenário positivo para que se autue o sujeito por tráfico de entorpecentes”, diz.

Ele conta que a renda do suspeito é algo que rotineiramente é levado em consideração nessa tomada de decisão. “Você pega um sujeito que tem um poder econômico grande se ele estiver com 200 gramas de cocaína ele tem capacidade de adquirir aquilo para o uso. Se você pegar um sujeito que não tem poder econômico de portar 300 gramas de cocaína, já fica complicado. Teria de considerar que ele está na realidade investindo naquilo para ganhar dinheiro. Não vai investir naquilo para o uso, não tem dinheiro para isso”, explica.

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