Tiago Queiroz/Estadão - 02/06/22
Tiago Queiroz/Estadão - 02/06/22

Vandalismo no centro ocorre por queda da oferta de drogas na Cracolândia, diz delegado

Chefe da 1ª Seccional Centro, Roberto Monteiro atribui enfraquecimento do tráfico à Operação Caronte, comandada por ele; foi realizada uma nova etapa da operação no fim da tarde desta quinta

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 21h38

SÃO PAULO – Cenas de vandalismo assustaram moradores do centro de São Paulo entre a noite de quarta-feira, 1º, e o início da madrugada desta quinta-feira, 2. A movimentação ocorreu, segundo o delegado Roberto Monteiro, por causa da falta de drogas na Cracolândia após ações policiais na região. Chefe da 1ª Seccional Centro da Polícia Civil de São Paulo, ele é um dos nomes à frente da Operação Caronte, criada para desmantelar o tráfico na área. Nesta quinta, foi realizada uma nova etapa da operação, que terminou com três detidos.

“Ontem (quarta) à noite tivemos uma arruaça justamente porque não tem droga ali na (Rua) Helvétia. Devido à repressão da polícia, o tráfico está muito reprimido e sufocado. Assim como perderam o espaço territorial deles, perderam a hierarquia que tinham ali”, afirmou o delegado ao Estadão. “Tem muito pouca droga lá”, disse ainda, em alusão ao que se viu durante a operação nesta quinta. A ação, informou a polícia, não foi motivada pelo quebra-quebra ocorrido na madrugada.

Em outras ocasiões, Monteiro ressaltou que um dos cuidados da polícia é evitar que traficantes insuflem usuários de droga contra os policiais e a população em geral. Durante esta madrugada, usuários de drogas promoveram quebra-quebra no centro e atiraram pedras contra estabelecimentos comerciais e residências da região. Vídeos divulgados por testemunhas mostram o momento em que grupos de pessoas se deslocam por vias como a Avenida São João e a Avenida Duque de Caxias, em Campos Elísios.

No fim da tarde desta quinta, a Polícia Civil fez uma incursão da Operação Caronte no cruzamento da Rua Helvétia com a Avenida São João, para onde boa parte do fluxo de usuários de droga migrou ao longo das últimas semanas. A ação contou com 40 policiais civis e 30 agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Teve ainda apoio da Polícia Militar, que ajudou a fazer o cerco na região por volta de 16h30. Os usuários foram contidos no local e passaram por revista.

Conforme Monteiro, um procurado pela Polícia Civil foi preso e outras duas pessoas foram detidas. Os agentes ainda estão averiguando se elas estão entre os procurados. O balanço final da ação ainda não foi divulgado, mas o delegado conta terem sido apreendidos facas, canivetes, tesouras, chaves de fenda e uma quantia considerável de dinheiro. Além de pequenas quantidades de drogas.

Após o fim da ação, que durou pouco mais de duas horas, os usuários se dispersaram por outras ruas das região e o local recebeu limpeza da Prefeitura. "Estão em ruas próximas, mas devem acabar voltando", disse Monteiro sobre o fluxo. A ação, reforçou a polícia, já estava planejada e não teve relação direta com o quebra-quebra desta madrugada.

Como mostrou o Estadão, a Polícia Civil dispersou o fluxo da Praça Princesa Isabel no início do mês, o que fez com que usuários de drogas se espalhassem por vias como a Frederico Steidel e a Helvétia. O entendimento da polícia é que, assim, as ações ficam mais facilitadas, o que aumentaria as chances de desmantelar o tráfico de drogas na região.

Monteiro relembra que quando a Operação Caronte teve início, na metade do ano passado, cerca de 2,5 mil usuários de droga e traficantes estavam estabelecidos na Praça Julio Prestes. Nesta quinta, estima o delegado, eram cerca de 400 pessoas na Rua Helvétia, o que seria um indicativo, argumenta, de sucesso da operação. “O combustível é o traficante. Quando se combate o tráfico, ainda mais em grupos pequenos, há mais permeabilidade para prender os traficantes, permeabilidade para ações sociais e de saúde.”

Ao mesmo tempo, moradores da região central relatam apreensão diante da dispersão dos usuários. Um exemplo é a psicóloga Natália Areias, de 41 anos, que passou a conviver nas últimas semanas com o fluxo de dependentes químicos da Cracolândia. “Aprendemos muito nesses últimos 14 dias, mas à custa de uma angústia que cresce a cada dia, nos adoece e mina nossas esperanças de uma cidade melhor”, relatou em depoimento escrito sobre a situação.

Atualmente, segundo Monteiro, o foco da polícia é acabar com o que chama de “ciclo vicioso” da Cracolândia e, paralelamente, encaminhar os usuários de droga aos serviços de assistência social da Prefeitura. “Fizemos um trabalho contínuo de repressão à organização criminosa que explorava o narcotráfico no fluxo”, explicou o delegado. Segundo ele, ainda há ao menos 30 mandados de prisão por tráfico de drogas a serem cumpridos na região.

Tudo o que sabemos sobre:
Cracolândiatráfico de drogas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.